O propósito é o fundamento para o existir!

Há períodos em que levantar, trabalhar e conversar exigem um esforço que antes parecia desnecessário. O futuro fica reduzido às próximas obrigações, enquanto aquilo que poderia despertar interesse parece distante. Se você procura compreender esse desânimo, quero apresentar uma questão que orienta minha reflexão sobre o sentido preferível e a esperança. Na proposta que desenvolvo, não existe desesperança, mas uma esperança bem encurtada. A procura por esta leitura já participa da esperança de encontrar alguma compreensão ou ajuda para o que está vivendo. Sentido Preferível Esperança Confiança!

 

Bacellart Psicólogo USP Paulista – O ensaio pode ser reproduzido, desde que citado o autor.

 

Quando a esperança fica encurtada

Quem diz que perdeu toda a esperança pode estar descrevendo um sofrimento intenso. Talvez já tenha tentado modificar uma relação, procurado outro trabalho ou esperado durante muito tempo por uma melhora. As decepções vão restringindo aquilo que parece possível, até que imaginar um futuro diferente se torna difícil. Levo esse sofrimento a sério ao propor compreendê-lo como esperança encurtada.

O alcance da esperança pode diminuir a ponto de se concentrar em conseguir algum descanso, ter uma conversa menos aflitiva ou encontrar alívio para aquele dia. Chamo de microesperança essa dimensão pequena, às vezes pouco percebida, do movimento em direção a algo preferível. Sua presença pode coexistir com tristeza profunda e grande dificuldade para agir. Você pode estar lendo sem entusiasmo, até duvidando de que encontrará algo útil. Ainda assim, procurar uma explicação que ajude já guarda uma direção de melhora. A possibilidade de depois procurar psicoterapia prolonga esse movimento. A esperança comparece nessa tentativa, mesmo sem a segurança de que o atendimento dará certo.

 

Somos sempre na esperança

O que proponho não é autoajuda nem uma filosofia de vida a ser adotada. É uma compreensão do nosso modo de existir. Somos, mais ou menos, sempre na esperança, orientados ao que pode representar algum ganho no viver. Esse ganho pode ser uma satisfação, a preservação de um vínculo ou a diminuição de um sofrimento. É nessa direção que nos movemos.

A esperança, nesse sentido, participa de situações comuns, sem depender de grandes projetos. Procurar uma companhia envolve a possibilidade de que o encontro faça bem. Pedir uma explicação envolve a possibilidade de compreender. Até interromper uma atividade exaustiva pode estar dirigido ao descanso necessário para continuar. Por isso, esperança e espera não são equivalentes. Podemos aguardar um acontecimento com ansiedade, indiferença ou interesse. A esperança que investigo diz respeito ao que se busca ganhar, realizar ou preservar nesse acontecer, mesmo quando ainda não conseguimos explicar claramente o que nos move.

 

O sentido preferível e as dificuldades de mudar

Chamo de sentido preferível aquilo que, em determinada situação, orienta o nosso lidar por parecer mais desejável, necessário ou suportável. A esperança participa desse movimento em direção ao que importa. As expressões se relacionam, preservando essa diferença entre a direção preferível e a esperança de sua realização. Pensemos em alguém que aceita pedidos excessivos e depois se sente esgotado. Embora reconheça o prejuízo, pode recear que uma recusa comprometa o afeto ou o reconhecimento que recebe. Concordar continua parecendo preferível diante dessa ameaça. O sofrimento aumenta, enquanto a esperança permanece muito concentrada em conseguir aprovação.

Compreender essa situação ajuda a investigar o que precisaria mudar para que recusar se tornasse possível. Também exige reconhecer limitações concretas. Quem depende de um emprego para sustentar a família não dispõe das mesmas alternativas de quem pode deixá-lo. A psicoterapia precisa considerar essas condições, sem atribuir toda dificuldade à vontade de quem sofre.

 

Como trabalhamos a esperança na psicoterapia

Na psicoterapia, essa esperança encurtada será trabalhada junto ao que você está vivendo. Interessa compreender o que a restringiu, quais experiências trouxeram decepção e o que ainda merece cuidado. Uma frase como “nada mais importa” pode começar a ganhar detalhes quando há espaço para falar do cotidiano, das relações e daquilo que se tornou difícil suportar.

O trabalho pode revelar, por exemplo, que toda possibilidade de satisfação ficou dependente da aprovação de alguém. Ou que uma exigência de desempenho tornou qualquer resultado insuficiente. São situações possíveis, que precisam ser examinadas em cada história. Conhecer essas relações permite discutir mudanças mais próximas do problema vivido. Também importa o que acontece entre nós durante o atendimento. Você pode ter receio de ser julgado, sentir que não foi compreendido ou discordar de uma interpretação minha. Poder conversar sobre isso faz parte do trabalho. Uma compreensão minha precisa encontrar correspondência na sua experiência e admitir correções.

A esperança pode ampliar-se quando algo diferente começa a ser vivido nessa relação e no cotidiano. Uma necessidade antes escondida pode encontrar expressão; uma conversa adiada pode tornar-se possível. O alcance dessas experiências será acompanhado ao longo do processo, respeitando as dificuldades que aparecerem. Retomando o exemplo de quem concorda com tudo, o trabalho pode permitir que reconheça seus limites e examine o medo de perder afeto. Uma recusa, quando houver condições para experimentá-la, poderá mostrar que a relação comporta diferenças. Se houver conflito, também teremos algo concreto para compreender e cuidar.

Mais esperança para enfrentar as dificuldades

Quanto mais esperança encontra sustentação em possibilidades que fazem sentido, mais ânimo pode haver para enfrentar as dificuldades. Quando se consegue antever algum ganho, o esforço passa a ter uma direção que interessa. Conversar sobre um conflito, cuidar da saúde ou reconsiderar uma exigência pode voltar a parecer digno de tentativa. Esse ânimo não precisa chegar inteiro antes de qualquer movimento. Às vezes, uma experiência menos frustrante ajuda a ampliar a esperança, e essa ampliação favorece outra tentativa. O processo admite hesitações e períodos difíceis. Ter um dia ruim durante a psicoterapia não significa que tudo o que foi compreendido deixou de valer.

Também precisamos cuidar daquilo em que a esperança se concentra. Esperar intensamente que alguém mude pode prolongar uma relação dolorosa. Ampliá-la envolve reconhecer outras possibilidades de satisfação e cuidado, para que o viver não fique inteiramente dependente de um único resultado. A esperança ganha alcance quando há mais de um caminho significativo a considerar.

 

A confiança necessária para experimentar

Conhecer uma alternativa e conseguir aproximar-se dela são experiências diferentes. Um ser humano pode compreender que precisa de ajuda e, ainda assim, temer depender de alguém. Pode desejar uma relação mais próxima enquanto receia outra decepção. Essas dificuldades têm uma história que merece ser conhecida. A confiança se fortalece em experiências nas quais o cuidado pode ser reconhecido. Na psicoterapia, isso inclui a continuidade do encontro, a atenção ao que você comunica e a possibilidade de conversar sobre desencontros. Aproximo essa questão da minha reflexão sobre esperança porque experimentar algo diferente envolve alguma confiança no que poderá acontecer.

Você não precisa chegar ao atendimento sabendo explicar tudo, nem demonstrando confiança plena. Podemos começar pelo que está conseguindo dizer. A própria dificuldade de falar, o receio de se frustrar e as dúvidas sobre o tratamento podem ser assuntos importantes desde o início.

 

Ampliar o futuro a partir do que você vive

Quando a esperança está muito encurtada, propostas amplas podem parecer distantes demais. Talvez a questão mais próxima seja diminuir o sofrimento numa relação, compreender o próprio cansaço ou conseguir enfrentar uma conversa. É a partir do que está acontecendo que procuramos reconhecer possibilidades com importância para você. A psicoterapia pode ajudar a distinguir o que ainda deseja preservar daquilo que passou a sustentar apenas por medo ou obrigação. Algumas expectativas precisarão ser revistas; outras poderão adquirir espaço. O futuro começa a apresentar diferenças quando já não parece limitado à repetição do que hoje faz sofrer.

Minha proposta é cuidar com você dessa esperança que continua presente, mesmo encurtada, para que ela possa ganhar amplitude no viver. A procura de ajuda já se dirige a algo preferível. Ao longo do trabalho, podemos compreender melhor essa direção e buscar condições para que ela se torne mais realizável, com menos sofrimento e mais ânimo para participar do próprio existir.

 

Cinco leituras para aprofundar

A esperança como combustível para continuar vivendo aborda o que ainda pode nos mover em períodos difíceis.

Esperança e confiança no amadurecimento emocional desenvolve a participação dos vínculos e do cuidado.

Psicólogo brasileiro citado na Wikipédia e a reflexão sobre esperança apresenta o percurso dessa investigação autoral.

O ser humano só faz o que lhe faz sentido consciente ou inconsciente examina direções do agir que nem sempre compreendemos.

 

Esperança e horizonte de sentido discute como as possibilidades se tornam