O ser humano só faz o que lhe faz sentido consciente ou inconsciente Psic

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O ser humano só faz o que lhe faz sentido consciente ou inconsciente Psic

O ser humano só faz o que lhe faz sentido consciente ou inconsciente Psic

O ser humano só faz o que lhe faz sentido consciente ou inconsciente Psic

Bacellart Psicólogo USP Paulista - O ensaio poderá ser reproduzido, desde que citado o autor.

O ser humano só faz o que lhe faz sentido – 

consciente ou inconsciente (mais – ou – menos).

Quando alguém me diz que determinada atitude “não faz sentido”, procuro compreender de onde vem essa avaliação. Pode ser uma conduta que contraria seus valores, uma decisão cujo motivo desconhece ou algo que ele próprio repete apesar de sofrer com as consequências. São situações diferentes. Minha proposta de que o ser humano faz o que lhe faz sentido procura acompanhar essa diferença e investigar a direção de seu fazer, incluindo aquilo que permanece pouco conhecido de si mesmo.

Bacellart Psicólogo USP Paulista – O ensaio pode ser reproduzido, desde que citado o autor.

A frase que deu origem a este ensaio, “o ser humano só faz o que lhe faz sentido”, precisa ser lida nesse horizonte. Desenvolvo uma interpretação clínica do existir concreto, aberta à investigação de cada situação. Seria um problema transformá-la numa resposta que já soubesse, antes de escutar alguém, por que ele age, sofre ou permanece numa relação. O interesse está precisamente em descobrir o que torna determinada direção possível, atraente, necessária ou menos ameaçadora para aquele ser humano.

Os diferentes sentidos de sentido

Na linguagem cotidiana, sentido pode indicar propósito, compreensão, valor ou direção. Ao escolher uma profissão, alguém considera o trabalho que gostaria de realizar, as condições de sustento, o reconhecimento e o modo de viver que imagina construir. Esses aspectos podem convergir ou entrar em conflito. Uma carreira pode parecer desejável pelo prestígio e, ao mesmo tempo, tornar o cotidiano pouco suportável para quem a exerce.

Também há sentido no que ainda não se tornou um projeto definido. Sentar perto de alguém numa reunião, adiar uma conversa ou escolher um caminho familiar pode envolver maneiras de procurar segurança, proximidade ou menor exposição. Muitas dessas orientações acontecem sem uma explicação formulada. O que importa pode ser percebido no próprio gesto, antes de aparecer numa frase sobre o motivo daquele gesto.

A pergunta “qual o sentido da vida?” alcança outra amplitude. Ela pode surgir quando o trabalho, os vínculos e os compromissos já não sustentam o modo habitual de existir. Nessa situação, uma resposta abstrata talvez ajude pouco. Interessa compreender o que perdeu importância, o que continua fazendo falta e o que ainda poderia adquirir valor, considerando a história singular de quem pergunta.

O sentido também se modifica com o que acontece. Uma promoção desejada durante anos pode perder importância depois do nascimento de um filho, de uma perda ou de uma mudança na relação com o trabalho. A conquista conserva o mesmo nome, porém passa a participar de outro momento do viver. Isso permite compreender por que alguém pode rever uma decisão sem concluir que sua escolha anterior foi falsa ou que agora finalmente descobriu uma identidade definitiva.

 

Aquilo que acontece antes da explicação

Nem tudo que orienta nosso fazer está disponível à reflexão no momento em que acontece. Uma conversa pode provocar constrangimento antes que alguém consiga identificar o que o atingiu. Um convite pode parecer ameaçador, embora a própria pessoa reconheça que os participantes a tratam com consideração. O modo como a situação se apresenta já participa de sua resposta.

Chamo de pré-reflexivo aquilo que é vivido sem estar sendo examinado explicitamente. Isso pode estar presente na familiaridade de caminhar por uma rua conhecida, no ajuste da distância durante uma conversa ou no desconforto sentido diante de um olhar. O vivido pode ser percebido e acompanhado sem que se transforme imediatamente numa explicação sobre si mesmo.

Em meus estudos, utilizo também, de maneira exploratória, a expressão “não consciente fenomenológico” para o que participa do acontecer de alguém e permanece pouco desvelado para ele. Essa formulação é minha e exige cuidado. Ela não designa uma nova parte da personalidade nem equivale automaticamente ao inconsciente das teorias psicanalíticas. Uma direção pouco reconhecida e uma experiência vivida sem reflexão são questões próximas, porém distintas.

Por isso, dizer “você faz isso inconscientemente” pode encerrar cedo demais a investigação. Ainda precisamos compreender o que acontece, em quais relações, desde quando e sob quais condições. Uma palavra conceitual só contribui quando permite aproximar-se da experiência que está sendo descrita.

 

Saber que algo faz mal e continuar fazendo

Considere alguém que concorda com a importância de cuidar da saúde, porém adia repetidamente esse cuidado. A concordância pode ser efetiva, enquanto outras dificuldades também participam da situação. Há temor de receber um diagnóstico, vergonha, falta de recursos, cansaço ou uma forma de alívio que se tornou difícil abandonar. Cada possibilidade precisaria ser examinada, sem eleger previamente uma delas como explicação.

O mesmo acontece com quem afirma desejar relações mais equilibradas e continua aceitando pedidos que lhe causam problemas. Talvez recusar seja vivido como ameaça de perder afeto, reconhecimento ou pertencimento. Se essa direção fizer parte de sua experiência, compreender o próprio esgotamento será apenas uma etapa. Será preciso conhecer também o que uma recusa parece colocar em risco.

Isso ajuda a entender por que uma conclusão intelectual pode coexistir com uma maneira diferente de sentir e agir. Quem está triste não consegue simplesmente ordenar a si mesmo que se anime. Da mesma forma, reconhecer que uma relação faz sofrer pode conviver com a dificuldade de afastar-se dela. A mudança depende de condições concretas e de um trabalho de compreensão que alcance o modo como aquele vínculo participa do existir.

É igualmente necessário considerar o corpo que participa dessas possibilidades. Uma tarefa antes simples pode tornar-se difícil quando alguém está exausto ou adoecido. A redução de suas atividades não permite concluir, por si mesma, que ele deixou de reconhecer valor nelas. A vontade de continuar pode permanecer, acompanhada da impossibilidade momentânea de fazer como antes. Esse limite interessa à investigação do sentido porque modifica as condições em que o querer poderia transformar-se em ação.

 

O que nomeio sentido preferível

Venho desenvolvendo a expressão sentido preferível para compreender aquilo que adquire maior importância no acontecer concreto e orienta o lidar de alguém. O preferível pode aparecer como realizável, necessário, satisfatório ou menos insuportável. Essa orientação nem sempre se apresenta como uma escolha clara entre alternativas, e pode permanecer parcialmente desconhecida de quem a vive.

O termo também comporta situações desagradáveis. Um trabalhador pode permanecer numa atividade exaustiva porque precisa sustentar a família e encontra poucas alternativas. Chamar essa continuidade de preferível, no sentido que proponho, exige reconhecer a dureza das condições. Ele pode estar preservando a sobrevivência em meio a possibilidades muito restritas, sem desejar a exploração a que está submetido.

Além disso, preferível não significa automaticamente saudável, justo ou benéfico. Alguém pode procurar controle, vingança ou reconhecimento de maneiras que ferem os outros e comprometem seu próprio viver. Minha formulação descreve uma orientação situada. Sua avaliação ética e suas consequências precisam ser examinadas, inclusive quando o resultado contradiz aquilo que alguém dizia querer.

 

Em prol de si mesmo com os outros

No título de outro de meus estudos, proponho pensar o lidar em prol de si mesmo, com os outros e no mundo. O vínculo é decisivo nessa formulação. Aquilo que importa a alguém pode incluir profundamente o bem-estar de um filho, o cuidado de um companheiro ou a continuidade de um trabalho compartilhado. O sentido de seu viver já se encontra relacionado a essas presenças.

Um voluntário que distribui refeições pode encontrar nessa atividade algo que deseja realizar e, simultaneamente, cuidar de uma necessidade concreta de outros seres humanos. A satisfação de ajudar não esvazia o cuidado oferecido. Também seria precipitado concluir que qualquer gesto de solidariedade existe apenas para produzir aprovação ou vantagem para quem o pratica.

Procuro compreender como o compromisso com os outros participa da existência de quem se compromete. Essa relação pode envolver prazer, responsabilidade, renúncia e conflito, conforme a situação. O que alguém considera importante para si mesmo se constitui numa história compartilhada, na qual acolhimento, exigências, perdas e encontros continuam modificando sua maneira de lidar.

 

O futuro já participa do que fazemos

Preparar uma viagem ajuda a perceber algo dessa relação com o tempo. Alguém considera lugares que gostaria de conhecer, retoma experiências de viagens anteriores, conversa com quem irá acompanhá-lo e começa a organizar as condições da partida. O que ainda não aconteceu já orienta ações presentes, enquanto o vivido participa daquilo que se espera encontrar.

Em Heidegger, a temporalidade do existir permite pensar essa articulação entre porvir, ter-sido e presente. O projeto, nesse contexto, diz respeito à abertura de possibilidades de ser e tem alcance mais amplo que um planejamento de tarefas. A experiência temporal não se deixa explicar como uma simples fila de instantes, na qual o passado terminou e o futuro só importará quando chegar.

Aproximo essa reflexão de minha pergunta clínica sobre o sentido preferível, preservando a diferença entre os campos. Heidegger examina estruturas do modo de ser humano; aqui investigo como possibilidades concretas adquirem importância para alguém. Uma formação, uma separação ou a retomada de um vínculo podem reorganizar o presente conforme o futuro passa a ser vivido de outra maneira.

As possibilidades de futuro também se formam num mundo compartilhado. Profissões valorizadas, expectativas familiares e imagens de sucesso podem participar daquilo que alguém deseja antes que ele examine essas referências. Ao se perguntar por que determinada conquista se tornou indispensável, pode perceber tanto uma afinidade sua quanto o receio de desapontar os outros. A reflexão permite reconhecer essas participações, embora jamais ofereça uma posição completamente separada da história em que cada um aprendeu a viver.

 

A linguagem permite aproximar-se do vivido

Ao falar do que acontece, alguém pode perceber diferenças que antes estavam misturadas. Dizer “estou cansado” talvez seja o início de uma descrição que depois alcance ressentimento, medo de desapontar ou falta de interesse pelo trabalho. A palavra ajuda a acompanhar essas distinções quando permanece ligada ao que está sendo vivido.

Isso exige considerar também aquilo que ainda não encontrou expressão verbal. O corpo, os gestos e a familiaridade com o mundo participam da experiência antes de uma descrição detalhada. Uma criança pequena pode procurar acolhimento sem formular o propósito dessa procura. Um adulto pode sentir-se deslocado num ambiente antes de compreender o que torna sua presença ali difícil.

Na psicoterapia, interessa-me essa passagem entre viver algo e conseguir falar a respeito. A interpretação precisa permanecer disponível à correção por quem descreve sua experiência. Quando uma explicação parece coerente para o profissional, ainda é necessário investigar se ela corresponde ao acontecer daquele ser humano.

 

Compreender uma direção e examinar suas consequências

O exemplo da guerra evidencia um limite importante. Um governante ou grupo pode perseguir domínio, território ou poder, e esses objetivos ajudam a compreender certas decisões. Tal compreensão precisa incluir instituições, interesses e circunstâncias históricas. Reduzir um conflito coletivo à personalidade de um único dirigente empobreceria a análise.

Encontrar propósitos numa ação violenta tampouco a torna aceitável. Uma descrição do que move quem agride não substitui o reconhecimento do sofrimento imposto, da responsabilidade e da necessidade de proteção. O sentido vivido por alguém pode entrar em conflito profundo com a dignidade de outros seres humanos.

Essa distinção também vale nas relações próximas. Uma tentativa de controlar o companheiro pode estar relacionada ao medo de perdê-lo, mas compreender esse medo não concede direito ao controle. O cuidado clínico pode investigar o sofrimento de quem age e, ao mesmo tempo, reconhecer que determinada conduta produz dano. Os dois aspectos pertencem à situação que precisa ser compreendida.

 

Quando a palavra escolha simplifica demais

A expressão “você escolheu isso” pode sugerir uma liberdade que a situação não oferecia. Dependência econômica, ameaças, adoecimento e desconhecimento de alternativas alteram profundamente o que alguém consegue fazer. Minha proposta exige considerar essas condições, sobretudo quando uma decisão será julgada por quem dispõe de recursos muito diferentes.

Também evito concluir que um sintoma existe porque traz algum ganho. Pode haver diferentes sentidos associados a uma experiência, mas a investigação precisa permanecer aberta, inclusive àquilo que ainda não compreendemos. Em situações de sofrimento intenso, afirmar de antemão que alguém “quer continuar assim” acrescenta uma interpretação que talvez não corresponda ao vivido.

Por isso, considero pouco esclarecedor encerrar a conversa com o rótulo de autossabotagem. O que parece uma ação contra si mesmo pede investigação das direções em conflito, das limitações e das consequências. Minha objeção é ao uso desse nome como resposta suficiente. Repetições prejudiciais existem, e descrevê-las com precisão permite reconhecer sua gravidade sem atribuir uma vontade secreta de sofrer a todas elas.

Nos temas da autolesão e do suicídio, esse cuidado precisa ser ainda maior. Nenhuma dessas experiências deve ser explicada por um motivo único, nem apresentada como consequência inevitável de perder o sentido. Investigar o sofrimento exige acolhimento e avaliação clínica específica; uma interpretação filosófica, isoladamente, não esclarece a situação nem define o cuidado necessário.

 

A confiança pode ampliar o que se torna possível

A leitura de Winnicott ajuda-me a considerar a importância do ambiente e das relações no amadurecimento e na continuidade do existir. A confiança se constitui em experiências de cuidado, e suas dificuldades precisam ser compreendidas na história de quem chega à psicoterapia. Reconhecer essa dimensão impede que a mudança seja tratada apenas como decisão ou esforço individual.

A relação terapêutica pode oferecer condições para examinar uma recusa, sustentar uma discordância ou reconhecer um desejo sem que toda diferença seja vivida como ameaça de ruptura. O alcance desse trabalho depende do processo singular. Compreender algo sobre si mesmo pode acompanhar mudanças pequenas, hesitações e novas questões, enquanto outras formas de se relacionar começam a ser experimentadas.

Esperança e sentido preferível se aproximam nesse ponto, conservando significados diferentes. O preferível permite investigar a direção que adquire importância numa situação, inclusive quando ela é prejudicial ou pouco compreendida. A esperança diz respeito à experiência de esperar por uma possibilidade que importa. Alguém pode continuar orientando seu fazer sem reconhecer em si mesmo esse esperar como um sentimento definido.

Desenvolvo a relação entre possibilidades e futuro em Esperança e horizonte de sentido no viver cotidiano. Já em Esperança e confiança no amadurecimento emocional, aproximo a discussão das experiências de confiança e cuidado. São desdobramentos de uma investigação em que cada expressão precisa conservar seu alcance, sem explicar antecipadamente tudo que acontece.

Volto, assim, à pergunta que acompanha este ensaio. Diante de uma atitude que parece incompreensível, procuro conhecer o que estava em jogo, como a situação se apresentava e quais possibilidades estavam acessíveis. Às vezes, a direção se esclarece; em outras, continua parcialmente desconhecida. A possibilidade de reconhecer essa diferença permite investigar o sentido sem impor a alguém uma explicação pronta sobre quem ele é.

– Então o ser humano só faz o que lhe faz sentido? Até no que é “ruim” para ele?

– Sim, pois tem o sentido de ganho:
      • “Qual o S. em fumar”? – Pode ser ficar calmo, seguir o que outros fazem para sentir-se fazendo parte, etc.
      • “Qual o S. em automutilar-se”? – Pode ser alívio de culpa, alívio de um sofrimento psicológico através de uma ‘conecção maior’ com o corpo, etc.
      • “Qual o S. em escolhas erradas”? – Quem as fez, naquele momento, acreditava ser o certo(ou o melhor).
      • “Qual o S. em ser masoquista”? – O prazer, como com todos, mas ele obtém esse prazer num ‘jogo sexual’ raro. 
      • “Qual o S. em ‘gostar de sofrer’ “? – Isso não existe, como no caso acima, o que tem o S. negativo para você, no caso do ‘jogo sexual’ do masoquista, para ele é prazeroso. Não há propósito em gostar de algo que lhe faça mal.
      • “Qual o S. de manter uma atitude que a própria pessoa reconhece como prejudicial para si-mesma, como ‘não dizer não’ aos outros e ter problemas com isso, inclusive até dizer que não gostaria de ser assim”? – Existe a possibilidade, de pelo que essa pessoa passou, sobretudo quando bebê e criança, de não ter recebido (ou muito pouco) o amor que precisamos, e/ou recebeu o oposto, maus tratos. Então, inconscientemente, ela continua fazendo o seu possível para receber esse amor, tentando agradar aos outros, pois assim “sabe” que será bem vista, aprovada.
      • “Qual o S. de postergar ou ter “preguiça”(desinteresse) de fazer algo importante até mesmo na opinião dela”? – Provavelmente é algo que a pessoa (que pode ser bem animada de modo geral), não ver sentido em fazer logo e saber que fará até o prazo final.

Lembrem que Sentido é singular(de cada um) e temporal(muda no tempo):

      • “Qual o S. na auto-sabotagem”? Não existe isso, pois não faz S. se prejudicar. Nesse caso, a pessoa, inconscientemente (mais – ou menos), fez o que lhe faz S., como nos exemplos da gastronomia e ‘não dizer não aos outros’.
      • “Qual o S. de um camponês ter um trabalho que odeia; quase como um escravo pelo tanto que esforço que faz e, o quase nada que recebe”? – Ele, a princípio(por exemplo), precisa desse mísero salário para sua sobrevivência e de sua família. Pode também não saber fazer algo e/ou não ter outra oportunidade melhor.
      • “Qual o S. de um suicídio”? – Há vários casos que a pessoa teve um ‘ímpeto incontrolável’ e não planejou; mas, de modo geral, esse ‘abreviar o inevitável’ é para cessar um sofrimento intenso e perda absoluta no S.(confiança) da existência e na relação com os outros.
      • “Qual o S. de viver uma vida que não tem S.”? – A imensa maioria das pessoas vive a vida que tem sentido para elas, seja ‘absorvido’ dos pais(tutores) e/ou pela sociedade, ou por decisão autoconsciente.

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