A esperança como fundamental para a psiquê:
Quando alguém diz que já não encontra sentido no que faz, procuro compreender como seu mundo passou a se apresentar. O trabalho pode continuar o mesmo, os vínculos podem permanecer e os compromissos seguir acontecendo, enquanto tudo parece distante do que antes importava. É nessa experiência que a relação entre esperança e horizonte de sentido se torna uma questão clínica. Interessa-me saber o que ainda aparece como possível e o que deixou de parecer alcançável. Bacellart Psicólogo USP Paulista – O ensaio pode ser reproduzido, desde que citado o autor.
Bacellart Psicólogo USP Paulista – O ensaio pode ser reproduzido, desde que citado o autor.
O que entendo por horizonte de sentido
Uso a expressão horizonte de sentido para falar do campo em que algo pode ser compreendido como importante, ameaçador, desejável ou indiferente. O significado de uma possibilidade depende desse campo. Uma mudança de emprego pode aparecer como oportunidade para alguém e como perda de sustentação para outro, mesmo quando o salário e as tarefas são semelhantes.
Esse horizonte participa do modo como vivemos antes de conseguirmos explicá-lo. A pergunta sobre o sentido alcança o que fazemos, o que esperamos dos outros e aquilo que conseguimos imaginar para nós mesmos. Quando uma experiência altera profundamente esse campo, as possibilidades conhecidas podem deixar de orientar o cotidiano, e outras ainda não chegaram a adquirir consistência.
Possibilidade e esperança no diálogo com Heidegger
Encontro em Heidegger uma interlocução para compreender a existência a partir de possibilidades. Em Ser e Tempo, o compreender envolve um poder-ser que já participa do modo de existir. O projeto, nesse contexto, não se reduz a elaborar planos. Podemos estar envolvidos com determinada possibilidade sem ter formulado um objetivo ou uma explicação sobre ela. Heidegger também examina a esperança ao tratar das disposições afetivas e da temporalidade, no parágrafo 68. Sua análise permite considerar como o esperar se relaciona ao modo inteiro de existir, inclusive ao que já foi vivido. A partir dessa interlocução, desenvolvo minha reflexão clínica sobre a esperança, mantendo a diferença entre os conceitos do filósofo e a proposta autoral que estou construindo.
A possibilidade de algo acontecer, a expectativa de que aconteça e a certeza de um resultado possuem alcances diferentes. Posso esperar uma mudança que considero pouco provável; posso reconhecer uma oportunidade e ainda não conseguir desejá-la. Essa diferença ajuda a compreender por que conhecer alternativas intelectualmente pode ser insuficiente para começar a vivê-las.
Como o que foi vivido participa do esperar
Considere alguém que se preparou durante anos para uma posição profissional e, ao alcançá-la, percebe que sua rotina perdeu interesse. É uma situação possível, apresentada aqui como exemplo. O objetivo que organizava os esforços se realizou, mas a relação com o trabalho, com o tempo e com os outros continua pedindo compreensão. A conquista não determina o sentido que terá para aquele ser humano.
O futuro também é vivido a partir de experiências anteriores. Quem encontrou apoio em momentos difíceis pode se aproximar de uma nova possibilidade de maneira diferente de quem passou por decepções repetidas. Essas histórias participam do esperar sem definir antecipadamente o que acontecerá. Uma relação confiável, uma perda ou uma mudança nas condições concretas de existência pode modificar aquilo que parecia disponível.
Sentido preferível e o que ainda importa
Na reflexão que venho desenvolvendo, o sentido preferível ajuda a investigar para onde alguém se orienta em uma situação. Pode estar em questão preservar um vínculo, evitar uma exposição ou buscar uma maneira menos dolorosa de atravessar o dia. Aquilo que se apresenta como preferível pode conflitar com outras necessidades e até trazer prejuízos, razão pela qual seu significado precisa ser examinado na experiência concreta. Esperança e sentido preferível, portanto, não precisam ser tratados como palavras equivalentes. O preferível alcança orientações que podem acontecer sem uma expectativa reconhecível de melhora. Desenvolvo essa distinção em Psicólogo citado na Wikipédia e o sentido da esperança, onde apresento o percurso clínico dessa investigação.
Encontrar condições para experimentar outra possibilidade
Na psicoterapia, procuro compreender como determinado modo de viver se tornou tão estreito ou exigente. Essa compreensão inclui o que o ser humano deseja, aquilo de que precisa se proteger e as condições de que efetivamente dispõe. Uma dificuldade financeira, uma doença ou uma relação violenta exige atenção à realidade da situação, além do exame de seus significados.
O relato de desesperança merece ser escutado em sua gravidade e singularidade. Uma interpretação sobre sentido não substitui a avaliação do sofrimento, especialmente quando há risco à própria integridade. O cuidado precisa permanecer disponível mesmo quando alguém não consegue expressar expectativa de melhora, sem exigir que primeiro encontre um motivo convincente para confiar. A questão pode começar por uma possibilidade próxima, como conseguir falar do que se tornou insuportável ou retomar algo que ficou interrompido. A maneira como essa possibilidade encontra sustentação nas relações é desenvolvida em Esperança e confiança no amadurecimento emocional. O horizonte se modifica no viver concreto, quando algo passa a poder ser experimentado e acompanhado em suas consequências.