
O que é o Estoicismo afinal e por que ele está tão na moda?
De acordo com minha experiência, o estoicismo não é filosofia no sentido de entender o modo como se estrutura o pensamento sobre o ser humano e o mundo. Não é filosofia no sentido de entender como o ser humano é. Na verdade, é o que entendemos por filosofia de vida. É algo muito parecido com o que se difunde no oriente em religiões como o budismo e também em livros de auto ajuda. E, onde o Estoicismo ajuda?
Então, entendo que o estoicismo oferece respostas práticas, princípios claros, um manual de como agir diante do sofrimento. E é justamente essa característica que o torna tão atraente para quem está cansado de teorias complicadas. Quem quer algo que possa aplicar no dia de amanhã sente-se atraído por isso.
Observo que essa onda de popularidade vem do fato de que vivemos tempos confusos. Quando a gente não tem direção, qualquer mapa serve. Isso acontece mesmo que seja um mapa simplificado demais para a complexidade da vida real.
Ler sobre Estoicismo ou auto ajuda realmente ajuda alguém que está sofrendo?
Já atendi e conheci muitas pessoas terem alguma melhora, de vários modos com auto ajuda, e isso não é mentira nem exagero. O alívio que uma pessoa sente ao encontrar uma frase que organiza o caos interno pode ser muito real e muito importante naquele momento. Vejo nos meus atendimentos que para o ser humano ter como guia um modo de pensar, sobretudo se está perdido, realmente ajuda. Isso ocorre porque dá um chão, uma referência, algo para segurar enquanto a tempestade passa. O problema não é o estoicismo em si, mas a confusão entre usar aquilo como um apoio temporário e achar que aquilo substitui um trabalho mais profundo de autoconhecimento. Essa confusão pode fazer a pessoa se sentir ainda pior depois.
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Qual a diferença prática entre seguir o Estoicismo e fazer psicoterapia?
Na psicoterapia, não há ensinamentos do que a pessoa precisa fazer. Não existe um manual de instruções nem uma lista de deveres morais, e isso assusta muita gente que está acostumada com respostas prontas e frases de efeito. O objetivo da psicoterapia é a pessoa desenvolver seu autoconhecimento, amadurecimento, fortalecimento psicológico, independência e liberdade. No entanto, nenhuma dessas coisas vem de fora como uma receita de bolo. Então, entendo que enquanto o estoicismo te diz o que pensar, a psicoterapia te ajuda a descobrir como você pensa e porque você pensa daquele jeito. E essa diferença é enorme na prática do dia a dia.
Por que a ideia de controle total sobre as emoções é vista como problemática?
O estoicismo nos ensina a focar apenas naquilo que podemos controlar, e isso parece lindo. Mas a história da psicologia mostrou que a realidade é bem mais complicada do que os filósofos antigos imaginavam. O estoicismo nos ensina a focar apenas naquilo que podemos controlar. Isso é algo que foi visto diferente 22 séculos depois do Estoicismo, com o nascimento do que vemos hoje de psicologia. Porque até por volta de 1890 os médicos e filósofos imaginavam que o ser humano tinha o poder absoluto de controlar se ações, pensamento e emoções. Depois a humanidade passou por uma revolução. Entendeu-se que o nosso inconsciente psicológico tem uma grande força sobre o que fazemos, pensamos e sentimos, e essa descoberta mudou tudo.
Essa proposta de que somos nossas escolhas realmente faz sentido?
Então, entendo que essa proposta de que somos nossas escolhas fica complicada. Isso porque então escolheríamos ficar depressivos, ansiosos, não inteligentes, não esforçados e várias outras coisas ruins. E porque escolher isso não há resposta. Ninguém acorda de manhã e decide ter uma crise de pânico, ninguém escolhe passar semanas sem conseguir sair da cama. E, fingir que isso é uma questão de falta de controle ou de esforço pessoal é no mínimo cruel. Observo que essa crença no controle absoluto acaba gerando mais culpa do que solução. A pessoa se sente duplamente derrotada, derrotada pelo sofrimento e derrotada por não conseguir vencer o sofrimento sozinha.
O Estoicismo pode ser prejudicial para alguém com depressão ou ansiedade?
De acordo com minha experiência, o risco existe sim e não é pequeno. Isso porque uma pessoa deprimida pode interpretar a mensagem do estoicismo como mais uma prova da sua incompetência pessoal. Vejo nos meus atendimentos que quando alguém que está sofrendo lê frases como você escolhe como reagir, o que essa pessoa escuta é você está assim porque quer. Observo que esse efeito colateral da filosofia de vida quando aplicada sem cuidado aparece o tempo inteiro na clínica. Isso acontece com pessoas que se sentem culpadas por não conseguirem aplicar aquilo que leram nos livros.
Então vale a pena ler os estoicos ou é melhor ir direto para a terapia?
Observo que vale a pena sim, desde que a pessoa entenda que livros não substituem pessoas. Princípios gerais não substituem um olhar atento sobre a sua história e o seu jeito único de funcionar. Então, entendo que o estoicismo pode ser um bom ponto de partida, uma muleta inicial para quem está desesperado e precisa de algo para segurar. Mas muleta não é perna. De acordo com minha experiência, a grande diferença é que enquanto a filosofia de vida te ensina o que fazer, a psicoterapia te ajuda a descobrir quem você é.
O Estoicismo realmente propõe que o ser humano seja duro e enfrente a vida sem sentimentalismos?
Sim, é exatamente essa a proposta central do estoicismo clássico, a ideia é que o ser humano seja duro, resiliente, autossuficiente. Capaz de enfrentar qualquer adversidade sem se deixar abalar por sentimentalismos. Os sentimentos seriam vistos como distrações ou fraquezas que atrapalham o bom uso da razão. E, a tristeza prolongada era encarada como um erro de julgamento, não como algo natural que merece acolhimento.
De acordo com minha experiência, essa é uma das partes do estoicismo que mais atrai as pessoas, especialmente homens. São homens que cresceram ouvindo que chorar é feio, que sentir medo é covardia, que demonstrar tristeza é incomodar os outros. Então, entendo que esse ideal de dureza emocional vende muito bem num mundo que exige produtividade, performance e controle o tempo todo. Mas a pergunta que fica é se isso realmente funciona na vida real ou só parece bonito no papel.
Por que tentar ser duro o tempo todo pode ser prejudicial para a saúde mental?
Observo que o problema dessa proposta não é o desejo de ser forte, afinal ninguém quer ser fraco ou frágil diante da vida. O problema é a confusão entre ser duro e ser humano, como se fosse possível simplesmente desligar os sentimentos como quem desliga um interruptor.
Vejo nos meus atendimentos que muitos pacientes que tentaram viver sem sentimentalismos, engolindo o choro, ignorando a tristeza, fingindo que não sentem medo. Acabam desenvolvendo dores no corpo, crises de pânico inexplicáveis, insônia, explosões de raiva descontroladas.
O que acontece é que o que não se sente por cima, se sente por baixo, porque o corpo e a mente dão um jeito de mostrar que algo não vai bem, mesmo que a pessoa se esforce para ignorar. O sentimentalismo, como alguns chamam com desprezo, não é um luxo ou uma fraqueza. É a sua capacidade de perceber o que está acontecendo com você. É o seu sistema de alerta. É o que te diz que algo não vai bem.
A vida realmente precisa ser enfrentada como um campo de batalha o tempo inteiro?
De acordo com minha experiência, a vida não é um campo de batalha onde você precisa estar sempre de armadura, e tentar viver assim é exaustivo no longo prazo. Porque a armadura pesa, cansa, e com o tempo você nem lembra mais como é respirar sem ela. O ser humano não foi feito para ser duro o tempo inteiro, ele foi feito para ter momentos de dureza sim. Mas também para ter momentos de descanso, de acolhimento, de choro, de fragilidade compartilhada com alguém de confiança.
Então, entendo que essa proposta estoica de eliminar os sentimentalismos acaba, na prática, produzindo mais sofrimento do que resolvendo, porque você gasta uma energia enorme para manter uma fachada de dureza. No final, os sentimentos não vão embora, eles só se escondem em algum lugar do corpo ou da mente. E, assim, voltam com força maior depois, como um rio represado que uma hora transborda.
Qual seria a alternativa saudável a essa busca pela dureza emocional?
Observo que a alternativa não é o oposto, não é ser mole ou desmoronar a cada dificuldade. Mas sim aprender a ter uma relação diferente com os sentimentos, sem precisar, enfim, nem eliminá-los nem ser dominado por eles. A coragem não está em não sentir, a coragem está em sentir e continuar vivendo mesmo assim. Reconhecendo que a tristeza faz parte, que o medo é um sinal importante, logo, que a vulnerabilidade não é uma vergonha.
Vejo nos meus atendimentos que as pessoas que mais prosperam emocionalmente não são as que tentam ser duras. Mas as que aprenderam a se acolher, a pedir ajuda; a descansar quando precisam, a chorar sem se envergonhar. Então, entendo que o estoicismo pode oferecer algumas ferramentas úteis, mas como ‘filosofia de vida’ completa ele deixa a desejar. Justamente no ponto mais importante, que é acolher a humanidade que nos constitui.
O Estoicismo ajuda? Diferença livro de auto-ajuda e psicoterapia?
Link, texto: Esperança Sentido Horizonte e Cuidado.
Espero ter ajudado!








