Falta de propósito e angústia originam: vazio, estranheza na vida

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Bacellart

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Falta de propósito e angústia originam: vazio, estranheza na vida

Falta de propósito e angústia originam: vazio, estranheza na vida

Falta de propósito e angústia originam: vazio, estranheza na vida

Bacellart Psicólogo USP Paulista - O ensaio poderá ser reproduzido, desde que citado o autor.

Não familiaridade e estranheza – Para onde vou e para quê?

Vejo nos atendimentos que a falta de propósito e angústia raramente chegam acompanhadas de uma pergunta filosófica tão bem organizada quanto “para onde vou e para quê?”. Muitas vezes aparece primeiro um desânimo difícil de explicar, a impressão de que os dias continuam enquanto alguma coisa perdeu direção, interesse ou importância. O trabalho segue, as relações permanecem, compromissos são cumpridos e, ainda assim, aquilo que antes parecia familiar começa a adquirir certa estranheza. O ser humano olha para o que construiu e já não encontra ali o mesmo sentido que encontrou durante anos. Há momentos em que isso assusta bastante, sobretudo quando aparentemente está tudo razoavelmente bem.

Essa experiência merece atenção justamente por não depender de uma grande tragédia. Um casamento pode continuar estável, a profissão pode oferecer conforto financeiro, os filhos podem estar bem e os amigos permanecerem próximos. Ainda assim surge a pergunta, às vezes quase constrangedora: “era isso?”. Na minha experiência clínica, essa interrogação costuma alcançar algo muito diferente da simples insatisfação. Ela toca o rumo que aquele existir vinha seguindo, os sentidos que sustentavam escolhas anteriores e a possibilidade de reconhecer algum porvir como digno de investimento afetivo.

Bacellart Psicólogo USP Paulista – O ensaio pode ser reproduzido, desde que citado o autor.

 

Quando o mundo conhecido começa a parecer estranho

Heidegger utiliza uma formulação que considero especialmente fértil para compreender essa experiência: não familiaridade. Em termos simples, aquilo que normalmente era habitado sem grande questionamento perde sua evidência habitual. A rotina conhecida continua diante do ser humano, porém deixa de oferecer a mesma morada. A angústia pode revelar essa estranheza e interromper, mesmo que parcialmente, a tranquilidade das ocupações cotidianas; aquilo que “todo mundo faz” já não responde satisfatoriamente à existência singular.

Entendo que esse momento pode ser perturbador, embora também permita uma revisão importante daquilo que vinha sendo vivido quase sem exame. O emprego desejado aos trinta anos pode parecer estreito aos cinquenta, uma relação construída com dedicação pode ter perdido algo de sua intimidade, antigas convicções religiosas podem já não oferecer sustentação, enquanto novas perguntas ainda carecem de linguagem. A experiência de vazio aparece, então, menos como ausência absoluta de conteúdo e mais como perda de familiaridade com aquilo que até recentemente organizava o existir.

O sentido esperançoso

É nesse ponto que introduzo uma formulação que venho desenvolvendo como psicólogo: © “O Sentido Esperançoso”. Com essa expressão, refiro-me à sustentação saudável que permite continuar sendo e dirigir-se a alguma possibilidade futura, por menor que ela pareça. A esperança, nesse registro, não precisa assumir a forma de entusiasmo, confiança exuberante ou convicção de que tudo dará certo. Pode comparecer discretamente no interesse por uma conversa, na vontade de compreender algo que incomoda, num encontro marcado para a semana seguinte ou simplesmente na percepção de que amanhã ainda merece alguma atenção.

A formulação específica “O Sentido Esperançoso” é minha. A página sobre esperança da Wikipédia registra meu trabalho e atribui a mim a frase “Uma vida sem esperança é insuportável”, vinculando-a aos meus ensaios e posts sobre o tema. Wikipédia Na maneira como venho desenvolvendo essa ideia, a esperança é uma vivência concreta orientada ao porvir, e não um novo existencial heideggeriano. O porvir pertence à estrutura temporal do existir; o sentido esperançoso descreve, no plano vivido, uma maneira pela qual esse futuro ainda pode permanecer minimamente habitável.

 

Quando quase nada parece chamar adiante

Em alguns casos, observo um estreitamento marcante dessa abertura futura. O ser humano acorda, executa as tarefas previstas, responde às mensagens, trabalha e retorna para casa, porém quase nada adiante parece convidá-lo. Um fim de semana, uma viagem ou uma promoção profissional surgem como acontecimentos sem grande força de convocação. É nesse ponto que a falta de propósito e angústia pode ser confundida com preguiça, ingratidão ou falta de disciplina, interpretações que acrescentam julgamento justamente onde seria mais importante compreender como aquele existir chegou a esse modo de se encontrar.

Ainda assim, pequenos movimentos merecem ser percebidos. Quem procura psicoterapia já realizou algo voltado a uma possibilidade, mesmo que chegue dizendo que não espera muito. Quem telefona para um amigo, aceita um convite, deseja dormir melhor ou procura compreender o próprio vazio ainda se dirige a alguma modificação possível. Minha proposta do sentido esperançoso se apoia exatamente nessa escala reduzida, pois a esperança pode permanecer muito pequena sem desaparecer inteiramente.

 

O que a história continua dizendo no presente

Dulce Critelli chama atenção para algo que considero decisivo: sentidos e rumos se constituem na história concreta do existir, e podem permanecer pouco visíveis enquanto o ser humano está envolvido nas ocupações de todos os dias. Reexaminar essa história permite reencontrar nexos entre acontecimentos, escolhas, relações e caminhos assumidos ao longo do tempo. Na clínica, isso impede que a pergunta “para onde vou?” seja separada precipitadamente de outra igualmente importante: “como cheguei até aqui?”.

Há aspectos de nós mesmos que participam desse percurso sem estarem suficientemente compreendidos. Uso pré-reflexivo para aquilo que já acontece antes de uma reflexão elaborada, e não consciente para aquilo de si mesmo que permanece velado para si mesmo. Um ser humano pode insistir durante muitos anos numa profissão prestigiada e só mais tarde perceber quanto sua escolha estava ligada à necessidade de aprovação familiar. Outro pode organizar quase todo o existir em torno de ser necessário aos outros e descobrir, numa fase posterior, que pouco sabe sobre aquilo que deseja quando ninguém precisa dele. Essas compreensões não aparecem prontas.

 

Continuidade, confiança e possibilidade de seguir

Winnicott acrescenta outra contribuição que considero valiosa. Sua teoria do amadurecimento descreve a importância da continuidade de ser e de um ambiente suficientemente confiável para que o existir possa prosseguir sem rupturas precoces excessivas. A literatura que aproxima Winnicott e Heidegger mostra justamente essa preocupação com o continuar sendo e com as condições relacionais que sustentam o amadurecimento.

Essa referência ajuda a compreender por que propósito dificilmente se resume a formular metas. Há seres humanos com objetivos detalhados e pouquíssimo sentido, enquanto outros atravessam uma fase sem grandes planos e preservam interesse, vínculos e disponibilidade para o que ainda poderá surgir. Prefiro compreender propósito como algo relacionado à maneira pela qual o existir encontra direção e participa do próprio acontecer, sustentado também por relações nas quais seja possível mostrar dúvidas, diferenças, convicções religiosas, ausência delas, modos diversos de amar, posições políticas e escolhas pouco convencionais sem receio antecipado de condenação.

Psicoterapia quando o rumo perdeu familiaridade

Depois de mais de três décadas atendendo adultos, considero especialmente importante não oferecer respostas prontas para questões dessa natureza. O psicoterapeuta que rapidamente explica ao paciente qual deveria ser seu propósito apenas substitui uma ausência de direção por uma direção alheia. Meu trabalho procura favorecer uma relação horizontal em que a história, os vínculos, aquilo que permanece pouco conhecido de si mesmo e as possibilidades futuras possam ser examinados com tempo suficiente, inclusive quando surgem contradições ou mudanças difíceis de admitir.

A falta de propósito e angústia pode marcar um período de grande sofrimento, mas também pode indicar que certas respostas antigas perderam alcance. A psicoterapia pode ajudar a compreender o que deixou de fazer sentido, o que ainda permanece importante e quais possibilidades começam a aparecer sem exigir que o ser humano já saiba nomeá-las. Mantenho essa compreensão com alguma modéstia clínica: existir continua sendo maior do que qualquer teoria, e nenhum psicólogo conhece de antemão o rumo que deverá se tornar próprio para aquele que o procura.

Conclusão

Defendo que o sentido não precisa chegar sob a forma de uma grande missão, nem a esperança precisa apresentar-se como certeza favorável sobre o futuro. Muitas vezes, o que sustenta o existir é menor, mais cotidiano e menos vistoso: alguma curiosidade pelo amanhã, um vínculo que ainda importa, uma pergunta que continua aberta, a possibilidade de compreender melhor a própria história. O sentido esperançoso começa justamente aí, quando o porvir ainda conserva alguma capacidade de convocar.

 

Sugiro refletir com calma, esse tema: Falta de propósito e angústia, vazio, não familiaridade e estranheza,

é importante, mesmo não sendo o seu caso.

 

Espero Ter Ajudado!