Sentir-se não aceito, incompreendido, isolado, sem pertencimento.
Vejo nos atendimentos uma solidão que pode passar despercebida entre compromissos, amizades e relações duradouras. Quem a sente participa das conversas, costuma ser procurado por sua sensibilidade e, ainda assim, encontra pouca oportunidade de compartilhar aquilo que mais o ocupa. Chamo aqui de solidão de não ser compreendido essa experiência de estar próximo de outros sem conseguir dividir dúvidas, descobertas e sentimentos que pedem uma conversa menos apressada. A incompreensão dói especialmente quando vem acompanhada de admiração, pois o reconhecimento de certas qualidades pode conviver com um desconhecimento considerável de quem as possui.
Bacellart Psicólogo USP Paulista. O ensaio pode ser reproduzido, desde que citado o autor.
Quando compreender mais dificulta compartilhar
Quanto mais alguém examina o próprio viver, mais pode perceber diferenças entre o que sente e as explicações disponíveis nas suas relações. Interessa-me essa dificuldade de encontrar interlocução para uma compreensão que começou a mudar, como acontece quando antigas certezas sobre casamento, trabalho ou religião perdem força. Dulce Critelli discute justamente o desamparo de compreender de outra maneira e ainda carecer de referências compartilhadas que ajudem a sustentar essa mudança.
Ser único e precisar dos outros
Encontro em Heidegger uma indicação decisiva para pensar esse sofrimento: existir já envolve os outros, inclusive quando fazem falta. Somos coexistentes, constituídos em um mundo de relações, linguagem e possibilidades compartilhadas. Essa condição permanece quando a convivência se torna indiferente ou penosa, portanto estar acompanhado oferece pouca garantia de pertencimento. Na minha leitura clínica, a singularidade aparece nesse viver que ninguém pode assumir integralmente em lugar de outro, embora possa acompanhá-lo. Ser único ganha, assim, um sentido bastante concreto, o de ter uma história e uma maneira de ser que merecem consideração, inclusive nas diferenças que persistem durante uma conversa.
A distância entre admiração e intimidade
Para ilustrar, imagino um homem reconhecido pela lucidez com que ajuda os amigos a pensar suas dificuldades. Num jantar, ele tenta falar do desconforto que sente com uma carreira bem estabelecida, comenta que suas conquistas perderam parte do sentido e recebe sugestões de férias, outro emprego ou um passatempo. As respostas podem nascer de afeto, porém deixam sem companhia a pergunta que ele tentava formular sobre o próprio existir. Ele agradece, acompanha o assunto da mesa e volta para casa sem saber como retomar, com aqueles amigos, o que tentou compartilhar. Considero importante reparar também no que acontece depois, quando ele passa a apresentar apenas novidades agradáveis e assuntos que os amigos recebem com facilidade. A relação continua, enquanto algo relevante permanece sem conversa.
Também me parece necessário examinar a expectativa de compreensão total. Um amigo pode acompanhar uma perda e ter dificuldade diante de uma questão profissional, enquanto outro oferece uma conversa fecunda sobre o trabalho e pouco consegue dizer sobre o amor. Prefiro reconhecer o alcance de cada relação, preservando a possibilidade de encontro sem exigir que um único vínculo acolha todas as dimensões do existir.
O que permanece pouco conhecido de si mesmo
Na minha experiência clínica, compreender essas dificuldades exige atenção ao que se passa antes de uma explicação deliberada. Chamo de pré-reflexivo aquilo que já é vivido sem ter sido examinado, como o constrangimento sentido quando alguém começa a falar de uma necessidade. Emprego não consciente para aspectos do próprio acontecer que permanecem pouco conhecidos de si mesmo, inclusive a necessidade de aprovação que participa de certas escolhas. Essas expressões me ajudam a investigar o que leva alguém a recuar, adaptar suas palavras ou desistir de um assunto, sem presumir que conheça os motivos desse movimento.
Estar só e poder descansar da exigência
A contribuição de Winnicott me ajuda a distinguir o desamparo da capacidade de estar só, desenvolvida com apoio de uma presença confiável. Essa capacidade envolve poder permanecer consigo mesmo sem que a ausência momentânea de companhia seja vivida como perda de sustentação. Entendo que essa distinção merece atenção na solidão de não ser compreendido, sobretudo quando qualquer intervalo entre encontros se torna uma espera penosa por alguma confirmação de importância. Também considero o valor dos momentos de recolhimento nos quais ler, caminhar ou simplesmente repousar permite uma relação menos exigente com o próprio existir. OUP Academic
Recolho ainda de Winnicott a importância de preservar o direito de comunicar e de resguardar algo de si mesmo. Uma relação íntima comporta assuntos em elaboração, hesitações e aspectos que alguém prefere manter reservados. Por isso, considero essencial que a aproximação aconteça com respeito ao tempo de cada um, inclusive quando o desejo de conhecer o outro é intenso e nasce de afeto.
A solidão de não ser compreendido na psicoterapia
Meu trabalho, depois de mais de três décadas de clínica, começa pela atenção à história daquele que me procura e ao modo como tenta compartilhá-la comigo. Interessa-me conhecer as relações disponíveis, as experiências de acolhimento ou rejeição e aquilo que continua difícil de dizer. Presto atenção, inclusive, ao receio de me contrariar, à pressa de explicar tudo corretamente e às tentativas de responder conforme aquilo que se imagina que um psicólogo deseja ouvir, pois a própria consulta também é uma relação. Construo essa conversa com abertura para ser corrigido, pois o paciente participa da compreensão do que vive. Incluo nesse compromisso o respeito às diferenças de raça, gênero, orientação afetiva e convicção religiosa, bem como aos modos de existir que recebem reprovação social. Mensagens e telefonemas entre consultas podem fazer parte desse acompanhamento, conforme o que combinarmos.
Conclusão
Sustento que o desejo de compartilhar quem se é merece lugar nas relações, tanto quanto a liberdade de continuar se descobrindo. Também levo em conta a profundidade que se expressa com poucas palavras, em gestos e em modos de acompanhar uma dificuldade, pois a facilidade de argumentar alcança apenas uma parte do encontro. Na clínica, procuro favorecer uma convivência em que a singularidade possa aparecer sem precisar provar superioridade, e em que encontrar diferenças seja compatível com reconhecer o valor da companhia.
Sugiro refletir com calma sobre esse tema: Solidão / Ser único, não ter com quem compartilhar quem você é.
É importante, mesmo não sendo o seu caso.