Relação Saudável é Possível!
Casamento, Namoro, Ficar – Entrevista TV Record
Porque se tem paciência no trabalho(as vezes desagradável), mas “não consegue” ter com a pessoa amada? Essa A dedicação deslocada: trabalho, causas e o empobrecimento dos vínculos afetivos
Quando a causa ocupa o lugar da relação
Essa questão é fundamental. Afinal, a resposta não é complexa: as pessoas costumam dedicar muito mais energia ao trabalho, ao estudo ou a uma causa do que à pessoa com quem se relacionam afetivamente, mesmo quando afirmam amar esse parceiro ou parceira.
Quando falo em causa, refiro-me a tudo aquilo que orienta o viver e mobiliza empenho constante, como esporte, religião, política, voluntariado, consumo, viagens, diversão, drogas ou proteção animal. Em muitos casos, essas causas organizam a vida com mais força do que os vínculos afetivos.
Formação para o desempenho, não para o cuidado
De modo geral, somos muito mais preparados para o desempenho profissional do que para um lidar maduro com quem amamos. Além disso, soma-se a isso o desejo de realização pessoal. Por exemplo, sair do país por uma promoção no trabalho ou para estudar é algo frequente; contudo, essa escolha costuma deixar a pessoa amada sem a dedicação que uma relação saudável exige.
Isso sempre me chama a atenção no consultório. O analisando chega frustrado porque o relacionamento não flui ou porque não consegue encontrar alguém que realmente lhe agregue. No entanto, raramente ele questiona o quanto investe, de fato, nos vínculos afetivos.
Amor não garante competência relacional
No início da minha carreira, algumas mães diziam: “se amo meu filho, claro que sou uma ótima mãe”. Esse raciocínio também aparece nas relações amorosas. Contudo, lamentavelmente, não funciona assim.
Ser uma boa mãe — ou um bom parceiro — é extremamente complexo. Exige tempo, esforço contínuo, disponibilidade emocional e, muitas vezes, ajuda externa. Amor, por si só, não garante maturidade relacional.
Sucesso social versus abandono afetivo
A forma como absorvemos os valores sociais vigentes — especialmente sucesso, vitória e realização — cria uma assimetria clara. Mesmo quando alguém afirma valorizar família e afetos, a dedicação prática raramente é equivalente.
Além disso, o sentimento de poder gerado por conquistas profissionais, financeiras ou humanitárias costuma roubar da pessoa aquilo que ela mesma diz ser essencial: o amor, a amizade e o desfrute tranquilo do mundo.
A falsa sensação de estabilidade nos relacionamentos
Muitas pessoas se comportam com quem amam como se o vínculo fosse um emprego com estabilidade garantida. Assim, deixam de investir em diálogo aberto, em escuta genuína e até em trabalhar suas próprias limitações emocionais.
É desse cenário que surge o “espanto” quando o parceiro encerra um laço já frágil de afetos e forte de desentendimentos desgastantes — muitas vezes acumulados por anos.
O esforço que não se economiza
Papéis sociais e limites do comportamento
Somos, naturalmente, diferentes conforme o contexto. Não agimos da mesma forma com uma criança, um amigo adulto ou um desconhecido. Esses papéis são necessários. No entanto, isso não autoriza gritar com o filho ou o parceiro, especialmente quando se manteve extrema paciência com um chefe ou cliente difícil no mesmo dia.
Uma educação voltada à eficiência, não à escuta
Nossa educação não nos instrui nem nos treina para ouvir, acolher e cuidar. A sociedade nos lança diretamente ao estudo, ao trabalho e às responsabilidades práticas. No século passado, a mulher assumia com mais frequência o cuidado emocional do lar. Hoje, esse cenário muda de forma evidente, sobretudo com a terceirização da educação dos filhos.
Resolver o problema não é acolher o sofrimento
No trato com o outro, aprendemos a agir de forma pragmática para “resolver” o problema alheio. Se alguém perde o emprego, por exemplo, logo dizemos que precisa procurar outro. Contudo, o que essa pessoa precisa, naquele momento, é de acolhimento, não de instrução.
Em relações saudáveis, acolher, aceitar, comunicar, flexibilizar e conviver caminham juntos.
Quando o cuidado chega tarde demais
“Mover-se quando a água bate no nariz”
Há também um traço humano recorrente: economizar esforço. Muitas pessoas só reagem quando a situação se torna insustentável — quando a “água bate no nariz”. Antes disso, toleram o desconforto, acreditando que ainda conseguem sobreviver no barco que faz água.
O pedido de mudança costuma surgir apenas diante da intimação judicial de divórcio. Às vezes, ainda há reversão; na maioria dos casos, não. Se o cuidado começasse quando a água molhava os pés, o vínculo se fortaleceria com muito menos dor.
Escolhas maduras em um mundo de excessos
Vivemos em uma época em que muito é oferecido, mas não é possível ter tudo — nem sempre, nem no melhor nível. Além disso, precisamos dormir, comer e cuidar do corpo. Isso exige escolhas maduras sobre o que realmente importa.
Relações afetivas e depressão
Um fator central de sofrimento psíquico
Um dos maiores gatilhos para a depressão são os maus relacionamentos, os rompimentos e os divórcios. Cerca de 50% das pessoas que procuram psicoterapia o fazem por um abatimento relacionado a vínculos afetivos frágeis ou inexistentes.
O sofrimento depressivo, além de intenso, é difícil de atenuar. Ele afeta múltiplas áreas da vida e não tem prazo claro para cessar. Diferentemente de perdas financeiras — que costumo chamar de “mecânicas”, por serem concretas e delimitáveis —, a dor afetiva corrói silenciosamente.
Por isso, vale a pergunta final: se isso é tão essencial, por que não dedicar mais a isso desde agora?
© Copyright – Bacellart Psicólogo USP
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Imagine o quanto seu relacionamento melhoraria se você se esforçasse metade do que se esforça profissionalmente. Relação Saudável é Possível!






