A esperança como fundamental para a psiquê:
Proponho que a esperança, comprovada a partir da filosofia de Martin Heidegger e da psicanálise de DW Winnicott, revela-se como elemento constitutivo da existência humana e do funcionamento psíquico, assumindo um papel que ultrapassa o mero sentimento episódico ou atributo individual. Sua presença perpassa os processos de projeção, integração, cuidado relacional, confiança e fé, estruturando o horizonte de sentido em que se desenvolvem a vida cotidiana e os momentos extremos da experiência.
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Esperança no horizonte existencial:
Heidegger define o ser humano pela sua abertura à temporalidade e ao mundo, ou seja, pela capacidade de projetar possibilidades futuras no horizonte de sentido. Nesta minha abordagem, a esperança não aparece como uma emoção supérflua, mas como condição ontológica: o motor que sustenta o movimento de autoprojeção, permitindo ao ser humano permanecer orientado ao futuro, atualizar possibilidades e constituir sua identidade enquanto poder-ser. Mesmo nas situações em que predominam o sofrimento e a angústia, vejo a esperança no que mantém o ser aberto ao porvir, conferindo continuidade à narrativa existencial e possibilitando a confiança e a fé em novos modos de ser.
Esperança e integração psíquica:
Winnicott insere a esperança no dinamismo relacional e no amadurecimento psíquico: a confiança primordial estabelecida no ambiente suficientemente bom sustenta a capacidade de esperar por amparo, criar sentidos e reinventar-se diante das crises. Esperança é, assim, o fio que costura a coesão de si mesmo, possibilitando o brincar criativo, a reinvenção do sentido e a fé na continuidade da existência. O colapso dessa integração, como observado em quadros de sofrimento psíquico intenso, pode prejudicar ou romper a esperança, levando à vivência de despersonalização e desespero.
Esperança e horizonte de sentido como fica no suicídio?
Na articulação entre essas perspectivas, destaca-se que até mesmo em casos de suicídio há um movimento de busca de sentido: o desejo fundamental é cessar a dor pessoal e também poupar os entes queridos do sofrimento de assistir ao próprio declínio. A decisão, por mais extrema, é atravessada por uma intenção e por uma esperança final — muitas vezes de que a ausência, o silêncio, produzirá ruptura para si e para os outros. Isso reforça que a existência é sempre tensionada por sentido, confiança e fé (crer) em novos estados possíveis, mesmo na abreviação do resultado.
Confiança e fé como expressões da esperança:
Nos dois paradigmas, surge a confiança como sustentação básica da esperança: é a expectativa de que o mundo possa responder ao cuidado, ao investimento, à presença do outro. A fé, por sua vez, expande o horizonte do sentido, autorizando o indivíduo a crer na realização do projeto existencial, na reintegração do eu ou em novas possibilidades, sobretudo quando as condições circunstanciais impõem limites e facticidades
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