Solidão, incompreensão, desamparo, compartilhar – Aceitação

Foto de Bacellart

Bacellart

Psicólogo Experiência USP Av Paulista Presencial ou Online

mulher sozinha, sentada em um balanço, com o braço esticado em direção ao balanço ao lado, que está vazio, solidão amorosa.

Solidão, incompreensão, desamparo, compartilhar – Aceitação

Solidão, incompreensão, desamparo, compartilhar – Aceitação

Solidão, incompreensão, desamparo, compartilhar – Aceitação

Bacellart Psicólogo USP Paulista - O ensaio poderá ser reproduzido, desde que citado o autor.

Ninguém sabe como sou, preciso empatia.

 

Bacellart Psicólogo USP Paulista – O ensaio pode ser reproduzido, desde que citado o autor.

Vejo nos atendimentos como solidão e desamparo podem acompanhar um existir aparentemente bem amparado por amizades, relacionamentos e reconhecimento profissional. Interessa-me especialmente a situação de quem participa de conversas, recebe convites, desperta admiração e, ainda assim, encontra pouca oportunidade de compartilhar aquilo que pensa, sente e procura realizar. Ao escrever sobre essa experiência, detenho-me na diferença entre ter companhia e conseguir participar de uma relação com aquilo que importa para si mesmo. Alguém pode ser conhecido por sua competência, disponibilidade ou sensibilidade, enquanto suas dúvidas, seus impasses e suas transformações permanecem pouco percebidos, inclusive por quem demonstra afeto. É essa dificuldade de encontrar interlocução que tomo como ponto de partida.

Ser admirado e continuar pouco conhecido

Considero, como ilustração hipotética, uma advogada que começa a questionar a continuidade de sua carreira. Seus amigos destacam o reconhecimento que conquistou, a renda que recebe e os anos dedicados à formação, enquanto ela procura conversar sobre o desinteresse crescente pelo trabalho e sobre possibilidades que ainda mal consegue nomear. As respostas podem ser bem-intencionadas, embora deixem sem interlocução justamente o que motivou sua tentativa de conversar. Nessa cena, distingo a valorização da profissional bem-sucedida do interesse pela mulher que está revendo o próprio existir. Quem a admira deseja preservar algo que considera importante, e ela procura companhia para examinar se aquilo ainda tem o mesmo sentido para si mesma.

Ao pensar nessa situação, procuro reconhecer também o que se espera de uma conversa. Alguém pode desejar conselho, ajuda prática, oportunidade de organizar o pensamento ou simplesmente tempo para desenvolver uma questão antes de receber uma avaliação. A diferença entre essas expectativas merece atenção, pois uma resposta pode ser pertinente ao assunto e pouco sensível ao momento de quem fala. Interessa-me compreender como se chegou àquele impasse, o que já foi tentado e quanto foi necessário para começar a contar. Uma pergunta feita com atenção pode permitir que a conversa prossiga; uma conclusão precipitada pode encerrá-la justamente quando algo importante começava a aparecer.

Quando a reflexão encontra pouca interlocução

Ao considerar quem examina com maior profundidade a si mesmo, suas relações e seu viver, mantenho atenção à qualidade da interlocução procurada. Uma questão que envolve pertencimento, envelhecimento, escolhas amorosas ou sentido do trabalho pode exigir disponibilidade para acompanhar ambiguidades e mudanças de entendimento. Reconheço que essa disponibilidade varia entre relações e também entre momentos de uma mesma relação. Escolaridade, repertório cultural e inteligência, tomados isoladamente, dizem pouco sobre a disposição de alguém para escutar uma experiência diferente da sua. Prefiro examinar o encontro concreto, evitando transformar a dificuldade de compartilhar em prova de superioridade de quem sofre ou de incapacidade daqueles com quem convive.

Encontro em Dulce Critelli uma contribuição para compreender a importância de compartilhar aquilo que se percebe e se pensa. Em História pessoal e sentido da vida, ela relaciona a compreensão ao viver em conjunto e mostra como as diferenças percebidas por alguém precisam encontrar possibilidade de comunicação em um mundo comum. Essa leitura orienta minha atenção para uma questão que ultrapassa o interesse por assuntos semelhantes: ao contar o que acontece, alguém procura tornar compreensível a posição a partir da qual está vivendo. A conversa participa, assim, da elaboração do próprio entendimento, permitindo que uma experiência ganhe continuidade nas perguntas, nas lembranças e nas respostas de um interlocutor.

A distância que pode permanecer na convivência

Recorro a Heidegger para distinguir a presença de outros seres humanos da experiência concreta de proximidade. No § 26 de Ser e Tempo, encontro a indicação de que estar só continua sendo um modo de ser-com, inclusive quando há muitos outros presentes. Leio essa passagem preservando sua dimensão ontológica, isto é, sua referência ao modo de ser humano, e a distingo da qualidade afetiva de uma amizade ou de um relacionamento. O ser-com compreende também possibilidades de indiferença e estranheza. Essa distinção permite que eu examine a solidão durante a convivência sem tratar a existência de um casamento, de uma família ou de um grupo de amigos como evidência suficiente de amparo.

Na aproximação clínica desse problema, interesso-me pelo modo como cada vínculo permite perguntar, discordar, mudar de opinião e apresentar dificuldades. Considero insuficiente avaliar uma relação apenas pela frequência dos encontros ou pela quantidade de assuntos conversados, pois procuro compreender o que consegue ser compartilhado e o que permanece repetidamente evitado. Também observo a possibilidade de reconhecer o outro em sua diferença: acompanhar uma experiência exige disposição para compreendê-la, enquanto concordar diz respeito à posição assumida diante dela. Posso levar uma dúvida a sério, reconhecer sua importância e continuar pensando de outra maneira, sustentando uma conversa em que a divergência seja examinada com respeito.

O que participa da dificuldade de contar

Emprego a expressão não consciente para me referir àquilo do próprio acontecer que participa do pensar, do sentir e do fazer sem estar suficientemente reconhecido por quem vive. Distingo esse uso do pré-reflexivo, que designa a experiência antes de ela se tornar assunto de reflexão, pois algo pode ser sentido sem que seu sentido esteja esclarecido. Essa distinção, que venho trabalhando em meus ensaios, ajuda-me a acompanhar situações nas quais alguém percebe o desconforto de uma conversa e ainda desconhece o que o torna tão difícil. Interessa-me investigar essa dificuldade junto à história concreta, mantendo abertas as perguntas sobre aquilo que se teme, se espera e se procura preservar naquele vínculo.

Penso, como outra situação hipotética, em um professor que prepara uma mensagem para contar a um amigo que está desanimado. Antes de enviá-la, retira as referências ao sofrimento, acrescenta uma brincadeira e termina perguntando como o amigo está, embora desejasse falar de si mesmo. Ao examinar essa cena, perguntaria o que aconteceu durante a escrita, qual resposta ele antecipou e que experiências anteriores tornam difícil apresentar sua necessidade de companhia. Essa investigação permite acompanhar o percurso entre o desejo de conversar e a mensagem efetivamente enviada, sem decidir antecipadamente se houve receio de incomodar, vergonha, desconfiança ou uma avaliação pertinente da pouca disponibilidade daquele interlocutor.

A reflexão de Winnicott sobre o falso si mesmo oferece uma referência para examinar formas de adaptação que protegem aquilo que alguém ainda tem dificuldade de apresentar nas relações. Interessa-me especialmente sua atenção à possibilidade de um funcionamento social colaborativo coexistir com questões importantes que permanecem pouco alcançadas, inclusive durante um tratamento. Utilizo essa contribuição como orientação para investigar a experiência, preservando a diferença entre uma concessão cotidiana e uma organização defensiva mais abrangente. Ao acompanhar quem corresponde continuamente às expectativas alheias, procuro compreender quanto dessa adaptação permite conviver e quanto acaba restringindo a expressão espontânea daquilo que sente e necessita. OUP Academic

Estar só e sentir que se pode contar com alguém

Encontro outra distinção importante no trabalho de Winnicott sobre a capacidade de estar só. Nessa formulação, a possibilidade de permanecer consigo mesmo se desenvolve a partir de experiências de sustentação e de presença confiável, até que a presença efetiva de quem acompanha possa ser dispensada em certos momentos. Essa contribuição leva-me a distinguir o recolhimento que pode ser usufruído da ausência de companhia que se vive com aflição. Ao ouvir alguém falar de suas horas a sós, interesso-me por como elas são experimentadas, pelo que consegue fazer nesse período e pela confiança que conserva em seus vínculos. A mesma descrição de uma tarde passada em casa pode exigir compreensões bastante diferentes, conforme o sentido que aquele tempo assume para quem o vive. OUP Academic

Compartilhar também inclui preservar a intimidade

Ao escrever sobre compartilhar quem se é, considero necessário preservar o direito de escolher o que contar, em que momento e a quem. Winnicott aborda a coexistência entre a necessidade de comunicação e a preservação de uma dimensão da existência que deve permanecer protegida de invasão. Essa leitura orienta meu respeito pelo que ainda está sendo elaborado e por aquilo que alguém prefere conservar para si mesmo. Na psicoterapia, procuro acompanhar o ritmo dessa aproximação, oferecendo perguntas que possam ser examinadas e aceitando que certas experiências precisem de tempo para encontrar expressão. A confiança também se mostra quando o paciente consegue estabelecer um limite e perceber que esse limite será levado a sério. OUP Academic

Como acolho a incompreensão na psicoterapia

Nessas mais de três décadas de trabalho clínico, considero essencial que a relação terapêutica possa ser examinada por quem dela participa. Ao acompanhar solidão e desamparo, interesso-me também pelo que acontece durante nossas conversas: se uma pergunta pareceu precipitada, se determinada interpretação deixou algo importante de lado ou se o paciente sentiu dificuldade de discordar de mim. A experiência profissional exige que eu permaneça disponível para rever meu entendimento. Procuro sustentar uma relação horizontal no respeito, reconhecendo a responsabilidade específica que assumo como psicólogo e a autoridade de quem relata a experiência que está vivendo.

Incluo nessa responsabilidade a atenção às condições concretas de convivência. Ao ouvir um relato de incompreensão, considero necessário investigar se houve discriminação, humilhação ou exigência de esconder aspectos importantes do próprio existir. Recebo a população LGBTQIAPN+ e acolho diferenças de raça, aparência, crença religiosa, ausência de religião e modos de organização afetiva como dimensões que merecem respeito. Minha tarefa é compreender o que acontece com aquele ser humano, inclusive sua relação com os valores que o cercam, mantendo uma escuta que permita examinar tanto o sofrimento produzido pelas relações quanto as dificuldades que aparecem no modo de participar delas.

A disponibilidade que ofereço também precisa ser compreensível. Quando mensagens ou telefonemas entre consultas fazem parte do acompanhamento, procuro combinar suas possibilidades e seus limites, de modo que a continuidade da relação seja sustentada por acordos claros. Também me interessa acompanhar como o que se torna possível na psicoterapia participa das demais relações, seja na retomada de uma amizade, na apresentação de uma necessidade ou na percepção de que determinado vínculo oferece pouco espaço para aquilo que se procura. Considero a compatibilidade entre paciente e psicoterapeuta uma questão a ser reconhecida ao longo dos encontros, com liberdade para avaliar a qualidade dessa interlocução.

Poder compartilhar quem ainda se está tornando

Ao concluir, defendo uma compreensão do reconhecimento que comporte o caráter inacabado do existir. Interessa-me que alguém possa conversar sobre o que ainda está confuso, rever aquilo que pensava e apresentar uma necessidade sem ter de oferecer previamente uma explicação completa de si mesmo. Quem procura companhia para pensar também está descobrindo o que poderá dizer, e considero importante que essa descoberta encontre tempo e participação. O compromisso que assumo como psicólogo é acompanhar esse processo com experiência, atenção e disponibilidade para ser corrigido, ajudando a compreender o que dificulta a aproximação e o que pode torná-la possível. É nessa interlocução, construída entre perguntas, respostas e diferenças reconhecidas, que situo minha proposta de trabalho com quem sente falta de alguém com quem compartilhar o próprio existir.

Espero Ter Ajudado!