O ‘eu’ verdadeiro Versus o ‘eu’ que “precisou” se adaptar
Vejo nos atendimentos como a pergunta quem sou eu pode aparecer quando alguém mantém seus compromissos, resolve dificuldades e sente pouca participação no próprio viver. A comparação com uma máquina descreve esse desencontro entre realizar tarefas e reconhecer nelas algum desejo. Quando escuto que falta um sentimento, procuro compreender se faz falta prazer, espontaneidade ou a sensação de participar daquilo que se realiza. Recebo essa diferença como começo de investigação, especialmente quando alguém sabe explicar suas obrigações e encontra dificuldade para reconhecer o que deseja.
Bacellart Psicólogo USP Paulista. O ensaio pode ser reproduzido, desde que citado o autor.
O sentimento de ser real e participar do viver
Encontro em Winnicott uma referência importante para essa investigação, o sentimento de ser real, relacionado à espontaneidade e à possibilidade de viver criativamente. Aproximo essa formulação da experiência de reconhecer participação própria numa atividade, numa conversa ou numa escolha, inclusive quando o resultado permanece imperfeito. O viver criativo, nessa leitura, alcança a maneira de experimentar o cotidiano, para além da produção artística. Interessa-me conhecer o que desperta envolvimento durante uma realização, quanto dela pode ser usufruído e em que momentos prevalece a necessidade de corresponder a uma exigência. OUP Academic
Quando até o descanso precisa render
Construo uma situação hipotética de uma advogada que decide aprender a cozinhar para receber amigos. Ela pesquisa receitas, compra bons utensílios e estabelece uma sequência de preparo; no jantar, permanece ocupada em corrigir detalhes, recolhe pratos antes de todos terminarem e quase deixa de participar da conversa. Depois, sente alívio por ter cumprido o planejamento, embora conserve a impressão de que perdeu o encontro. Minha atenção se dirigiria à experiência dela durante aquela noite, ao que esperava oferecer e ao que temia que os convidados percebessem. A importância de acertar precisaria ser compreendida junto ao desejo que a levou a reunir os amigos.
Reconheço o valor da organização e do empenho, sobretudo quando sustentam realizações desejadas. Pergunto, porém, pelo destino do interesse inicial quando tudo passa a exigir aperfeiçoamento, inclusive o descanso; a refeição precisa impressionar, a leitura precisa ensinar alguma coisa, o encontro precisa justificar o tempo dedicado. Prefiro examinar como essas exigências foram se constituindo e quanto espaço permanece para usufruir, inclusive quando se percebe que uma atividade poderia terminar sem produzir algo demonstrável.
O que participa das escolhas antes de ser compreendido
Nos meus ensaios, emprego não consciente para aquilo do próprio acontecer que permanece pouco reconhecido por quem vive. Distingo esse uso do pré-reflexivo, a experiência que acontece antes de se tornar assunto de reflexão; a familiaridade com uma atividade pode coexistir com atenção e prazer. Na cena do jantar, procuro compreender uma questão diferente, o sentido que a necessidade de acertar adquiriu naquela relação. O receio de desagradar seria uma possibilidade a investigar, junto a outras, preservando a diferença entre formular uma hipótese e encontrar elementos que a sustentem na história apresentada.
Quem sou eu quando correspondo às expectativas
Recorro à reflexão de Winnicott sobre o falso si mesmo, uma organização de proteção na qual a adaptação às exigências pode comprometer a espontaneidade. Essa referência exige atenção à história e às relações, pois competência, gentileza e capacidade de adaptação também participam de um existir satisfatório. Procuro saber o que acontece quando surge uma vontade divergente, uma necessidade de repouso ou o desejo de receber ajuda. A pergunta quem sou eu ganha importância nesse reconhecimento do que foi sendo deixado sem expressão e das condições necessárias para que possa aparecer. OUP Academic
Quando a psicoterapia também parece uma tarefa
Nessas mais de três décadas de trabalho clínico, considero essencial que a conversa comporte hesitações, assuntos inacabados e discordâncias sobre o que compreendi. A observação de Winnicott de que alguém pode colaborar com o tratamento enquanto suas questões centrais permanecem pouco alcançadas orienta minha atenção à própria relação terapêutica. Por isso, pergunto como minhas intervenções são recebidas e aceito revê-las, oferecendo tempo para que o paciente apresente uma experiência antes de conseguir explicá-la satisfatoriamente. OUP Academic
O respeito que sustento inclui a população LGBTQIAPN+, diferenças raciais e corporais, convicções religiosas, descrença e modos diversos de organização afetiva. Também recebo relatos sobre posições políticas e experiências com drogas com interesse pelo que foi vivido, suas dificuldades e consequências. Quando mensagens ou telefonemas entre consultas integram o acompanhamento, estabeleço acordos sobre essa disponibilidade, seus horários e limites, para que a continuidade da relação seja compreensível. Procuro construir confiança suficiente para que alguém consiga falar do que necessita sem ter de se apresentar como um paciente exemplar.
Conhecer o próprio querer exige oportunidade de experimentar
Considero importante acompanhar o que acontece quando um desejo começa a encontrar lugar nos dias. Na situação hipotética do jantar, interessaria saber como aquela advogada viveria a possibilidade de aceitar ajuda, servir uma receita conhecida ou deixar algum preparo para outra ocasião, conforme o que desejasse experimentar. Cada tentativa poderia trazer satisfação, desconforto ou uma descoberta inesperada sobre a companhia procurada. Minha participação seria compreender essas respostas junto com ela, respeitando suas condições e evitando transformar a espontaneidade em mais uma obrigação.
O que sustento nessa procura
Defendo um autoconhecimento que alcance o modo como o existir vai sendo vivido, inclusive aquilo que ainda precisa de oportunidade para acontecer. Interessa-me acompanhar um desejo que começa a ganhar forma e reconhecer o que se modifica quando ele encontra expressão numa relação ou numa atividade. A pergunta quem sou eu permanece aberta à história que continua, com suas restrições e descobertas; meu compromisso como psicoterapeuta é sustentar essa investigação com respeito, experiência e disponibilidade para compreender algo que, até então, também me escapava.
O que esta leitura fez perceber sobre o próprio existir? Que desejo passou a merecer mais atenção?