Paradigma do amadurecimento, Zeljko Loparic
Sou psicanalista winnicottiano e, ao longo de mais de três décadas de clínica, fui me aproximando cada vez mais de uma ideia relativamente simples e, ao mesmo tempo, decisiva: saúde tem relação profunda com a possibilidade de continuar amadurecendo. Winnicott construiu grande parte de sua obra a partir de uma experiência clínica muito extensa, iniciada na pediatria e posteriormente ampliada para crianças, adultos e quadros psíquicos graves. Isso modificou profundamente sua compreensão do sofrimento humano. Em vez de partir prioritariamente de conflitos já organizados num ser humano constituído, ele voltou sua atenção para algo anterior: como alguém chega a sentir que existe, que possui continuidade, que habita o próprio corpo, que o mundo apresenta alguma confiabilidade e que pode relacionar se sem perder demasiadamente aquilo que lhe é próprio.
Bacellart Psicólogo USP Paulista – O ensaio pode ser reproduzido, desde que citado o autor.
O amadurecimento começa muito antes da autonomia
Tendência à integração e ambiente facilitador
Elsa Oliveira Dias organiza com grande clareza um dos fundamentos da teoria winnicottiana: o amadurecimento depende de uma tendência inata à integração e da existência continuada de um ambiente facilitador. A expressão “tendência inata” exige atenção, pois não significa que o amadurecimento acontecerá sozinho. Existe uma direção para integração e continuidade, porém ela necessita de cuidados suficientemente adequados para poder acontecer. O bebê não nasce sendo uma unidade psicológica plenamente constituída; essa unidade vai sendo conquistada ao longo de experiências que permitem gradualmente integrar corporeidade, temporalidade, contato com o mundo e um sentido de si mesmo.
Na leitura de Dias, a conquista de uma unidade constitui uma base importante da saúde emocional. Winnicott pensa o amadurecimento como processo, e aquilo que deixa de ser suficientemente integrado pode permanecer como perturbação, fragilidade ou dificuldade em momentos posteriores. Isso também impede que eu compreenda desenvolvimento como uma escada rígida, na qual todos deveriam alcançar as mesmas conquistas no mesmo momento. Há uma temporalidade singular e condições ambientais diferentes para cada acontecente. A própria Elsa Dias registra que o termo “amadurecimento”, adotado por sugestão de Zeljko Loparic, preserva melhor o sentido humano desse acontecer do que palavras mais genéricas associadas a mero crescimento.
O paradigma do amadurecimento muda a pergunta clínica
Zeljko Loparic e outra compreensão da psicanálise
Zeljko Loparic foi decisivo no Brasil para mostrar que Winnicott realizou algo maior do que acrescentar novos conceitos à psicanálise anterior. Sua leitura considera que houve uma mudança de paradigma, isto é, uma transformação daquilo que organiza as perguntas clínicas e a maneira de compreender o adoecer. Uma imagem utilizada nesse campo ajuda bastante: em vez de tomar como situação paradigmática a criança já envolvida em conflitos familiares relativamente complexos, Winnicott retorna ao bebê dependente dos cuidados de quem o sustenta. A pergunta passa a incluir como esse ser humano chegou a constituir uma unidade, sentir continuidade e estabelecer uma relação minimamente confiável com o mundo.
Essa mudança tem consequências clínicas amplas. O sofrimento deixa de ser compreendido apenas como conflito entre desejos, proibições e relações já estabelecidas, pois algumas dificuldades surgem quando certas conquistas do amadurecimento ficaram frágeis ou foram demasiadamente interrompidas. Elsa Dias mostra que as tarefas iniciais não podem ser tomadas como automaticamente garantidas e relaciona o êxito dessas conquistas aos fundamentos da saúde psíquica. Entendo, portanto, que saúde winnicottiana pode ser pensada como capacidade suficientemente preservada de continuar amadurecendo, integrando experiências e encontrando maneiras próprias de existir.
Quando uma “falha” interrompe aquilo que estava amadurecendo
O sofrimento pode ser compreendido como algo que precisa voltar a acontecer
A palavra “falha” merece cuidado. Winnicott não está sugerindo que pais devam executar uma criação perfeita ou que toda dificuldade posterior possa ser atribuída à família. Um ambiente suficientemente bom inclui desencontros, cansaço, irritação, limitações e reparações. O problema clínico aparece quando determinadas falhas acontecem numa intensidade, frequência ou momento em que aquele ser humano ainda dispõe de poucos recursos para integrá las. Algo pode então permanecer pouco elaborado e reaparecer posteriormente como insegurança, retraimento, necessidade intensa de controle, dificuldade de confiar ou formas muito estreitas de organizar o existir.
Vejo nos atendimentos situações em que compreender essa história altera bastante o modo de lidar com um incômodo atual. Uma ansiedade persistente, por exemplo, pode ganhar sentido numa história familiar marcada por imprevisibilidade, ameaças frequentes ou vínculos pouco confiáveis. Um acontecente que cresceu tentando antecipar mudanças de humor, conflitos ou rupturas pode chegar à idade adulta precisando resolver qualquer pendência rapidamente, procurando controlar horários, relações e acontecimentos que permanecem inevitavelmente incertos. Nesse caso, a tentativa de controle pode ter sido uma maneira de tornar o mundo um pouco mais suportável. Anos depois, aquilo que antes auxiliou começa a restringir possibilidades.
Prefiro compreender esse fenômeno antes de classificá lo moralmente. Alguém pode saber que controla demasiadamente uma relação e continuar incapaz de simplesmente abandonar esse modo de existir. A história pela qual essa necessidade se constituiu participa da maneira como o mundo ainda lhe aparece. Uma psicoterapia winnicottiana procura oferecer condições para que experiências que permaneceram pouco integradas possam ganhar outra possibilidade de elaboração, permitindo que o amadurecimento encontre novamente algum movimento.
A psicoterapia como facilitação do amadurecimento
O analista não empurra o paciente para um modelo pronto
Essa concepção modifica minha posição como terapeuta. Não trabalho supondo que exista um modelo universal de adulto ao qual todos deveriam chegar, nem considero saudável aquilo que apenas coincide com expectativas sociais majoritárias. Minha atenção se volta para a possibilidade de o acontecente tornar se mais integrado, apropriar se de sua história, reconhecer necessidades e limites, estabelecer vínculos menos ameaçadores e ampliar modos próprios de existir. Em certas fases, uma interpretação pode ajudar; em outras, o essencial será a confiabilidade da relação, a continuidade dos encontros e um manejo cuidadoso do que aparece.
Winnicott compreendeu que algo ainda não suficientemente experienciado pode encontrar, em condições clínicas adequadas, possibilidade de acontecer pela primeira vez. Elsa Dias destaca esse aspecto do trabalho terapêutico ao relacionar experiência e integração. Isso é muito diferente de imaginar que o psicólogo possui uma explicação escondida sobre o paciente. O terapeuta participa de uma relação na qual determinados modos de existir podem gradualmente deixar de ser tão necessários, pois encontram condições diferentes das que contribuíram para sua formação.
Winnicott e Heidegger podem conversar sem se tornarem a mesma teoria
Eder Soares Santos e a acontecência humana
Minha formação heideggeriana também influencia essa leitura. Eder Soares Santos realizou uma aproximação cuidadosa entre a teoria do amadurecimento de Winnicott e a acontecência em Heidegger, termo que procura preservar o sentido do existir como acontecer temporal. Seu trabalho sustenta que Winnicott promove uma mudança paradigmática e mostra pontos de aproximação com Heidegger, especialmente em questões relacionadas ao cuidado, tempo, espaço, realidade e ao próprio acontecer humano. Ao mesmo tempo, preserva diferenças entre os dois campos, algo que considero indispensável.
Essa aproximação interessa clinicamente, pois o amadurecimento não acontece num ser humano isolado. Desde o começo existimos em relações, dependemos de outros e vamos constituindo maneiras de habitar o mundo. Santos acentua que a teoria winnicottiana mostra nossa precariedade inicial e a necessidade de alguém que ofereça cuidado para que possamos chegar a ser. Heidegger ajuda me a pensar o acontecer humano; Winnicott permite aproximar essa questão do início concreto do amadurecimento e das condições relacionais necessárias para sua continuidade.
O trabalho winnicottiano no Brasil
Loparic, Elsa Dias e o IBPW
No Brasil, Zeljko Loparic e Elsa Oliveira Dias tiveram participação particularmente importante na elaboração, ensino e difusão dessa leitura de Winnicott. Em 2015, ambos fundaram o Instituto Brasileiro de Psicanálise Winnicottiana, o IBPW, instituição que mantém formação específica nessa orientação e atividades voltadas ao estudo da teoria e da clínica winnicottianas. O próprio material institucional apresenta a teoria do amadurecimento como referência central para o trabalho terapêutico.
Essa tradição me interessa justamente por levar a sério a originalidade de Winnicott, em vez de tratá lo apenas como um complemento de teorias anteriores. Sou psicanalista winnicottiano nesse sentido: considero o amadurecimento, a confiabilidade ambiental, a integração de si mesmo e a continuidade do existir referências importantes para compreender aquilo que encontro diariamente na clínica.
Psicoterapia presencial e atendimento online
O contato humano continua tendo um lugar especial
O atendimento online funciona e permitiu continuidade terapêutica para muitos seres humanos que moram longe, viajam bastante ou passaram a trabalhar em casa. Tenho bons acompanhamentos realizados por vídeo e reconheço plenamente essa modalidade. Ainda considero o presencial especialmente importante quando é viável, pois compartilhar concretamente o mesmo ambiente acrescenta dimensões à relação que uma tela alcança apenas parcialmente.
Para quem vive distante de São Paulo, costumo sugerir, quando possível, um encontro presencial a cada um ou dois meses no consultório da Avenida Paulista, mantendo os demais atendimentos online. Percebo que nos acostumamos muito rapidamente à conveniência de evitar trânsito e deslocamentos, compreensivelmente, porém considero valioso preservar algum espaço para o encontro presencial. Em situações específicas, também mantenho disponibilidade para mensagens ou telefonemas entre consultas, dentro de limites que favoreçam o próprio processo terapêutico.
Conclusão
Depois de 31 anos de clínica, continuo encontrando na teoria do amadurecimento uma maneira especialmente fértil de compreender o sofrimento sem transformar o acontecente numa coleção de sintomas. Aquilo que hoje incomoda pode ter participado, em outro momento, de uma tentativa possível de preservar continuidade, vínculo ou alguma organização de si mesmo. A psicoterapia pode criar condições para que aquilo que ficou interrompido encontre novas possibilidades de amadurecimento.
Essa é a razão pela qual Winnicott permanece tão presente em meu trabalho. Saúde, nesse horizonte, não significa perfeição, ausência de incômodos ou adaptação obediente ao mundo. Entendo saúde como a possibilidade de continuar amadurecendo, integrar experiências, sustentar relações suficientemente confiáveis e encontrar maneiras cada vez mais próprias de existir.
sugiro refletir com calma, esse tema, ele vai ser importante em várias situações do seu viver, para sempre.