O que sustenta o sentido do seu existir? Autêntico, escolhido PSIC

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Foto do psicólogo em post sobre o sentido da vida, autêntico e escolhido.

O que sustenta o sentido do seu existir? Autêntico, escolhido PSIC

O que sustenta o sentido do seu existir? Autêntico, escolhido PSIC

O que sustenta o sentido do seu existir? Autêntico, escolhido PSIC

Bacellart Psicólogo USP Paulista - O ensaio poderá ser reproduzido, desde que citado o autor.

O que sustenta o sentido do seu existir?

 

Bacellart Psicólogo USP Paulista. O ensaio pode ser reproduzido, desde que citado o autor.

 

Vejo nos atendimentos como o sentido do existir aparece nas prioridades que organizam os dias, inclusive quando alguém conhece pouco os motivos delas. Interesso-me tanto pelo projeto que mobiliza esforços quanto pelo encontro adiado, pela conquista que perdeu o encanto e pelo compromisso mantido com crescente desconforto. Nessa aproximação, procuro compreender o que ainda merece dedicação e o que continua sendo sustentado pela dificuldade de admitir uma mudança. A pergunta alcança uma existência concreta, com possibilidades desejadas, restrições e relações que participam de tudo isso.

 

O que o poder permitiria realizar?

Pergunto o que alguém faria se pudesse realizar qualquer vontade sem ser observado, e quanto dessa resposta conseguiria admitir para si mesmo. Vergonha e orgulho também entram nessa conversa, pois interessa conhecer os critérios que tornam um desejo aceitável ou constrangedor. Posso encontrar uma necessidade de afeto tratada como fraqueza, uma ambição mantida em segredo ou a vontade de fazer prevalecer uma decisão sobre os demais. Cada situação pede um exame próprio. A possibilidade imaginada de escapar à reprovação ainda conserva uma questão decisiva, o que aconteceria com aqueles que seriam atingidos. Recebo essa resposta como começo de conversa e examino a distância entre imaginar um ato e decidir realizá-lo.

Em meus ensaios, emprego sentido preferível para aquilo que, numa situação, adquire maior importância como realização, preservação ou alívio. Trata-se de uma proposta clínica minha, referente ao acontecer concreto e aos valores de quem vive. O poder amplia a possibilidade de realizar essa direção e pode também modificá-la; interessa-me conhecer tanto o que se procura quanto as consequências que se admite produzir.

 

Desejar e suportar o limite?

Distingo a vontade mantida em reserva, aquela ainda difícil de reconhecer e um desejo cuja realização se tornou inviável. Minha leitura de Heidegger orienta a atenção para possibilidades que pertencem a uma existência já situada, comprometida com circunstâncias e vínculos. Na clínica, isso exige examinar o que efetivamente pode mudar. Diante de uma perda irreversível, acompanho a decepção e o tempo necessário para reconhecer o que ela altera no futuro esperado; também observo quando uma explicação muito convincente encerra a conversa enquanto a dor continua. Prefiro que a compreensão comporte esse desencontro, preservando a diferença entre aceitar uma limitação incontornável e procurar proteção ou mudanças diante de algo que ainda admite intervenção.

 

Quanto seria suficiente para usufruir?

Quando ouço o desejo de ter sempre algo a mais, pergunto a que esse acréscimo serviria. Segurança financeira, conforto e possibilidade de ajudar familiares merecem ser compreendidos em suas circunstâncias, tanto quanto a satisfação de ser reconhecido. A pergunta pelo suficiente ganha precisão quando alcança o que se espera sentir depois da conquista. Também me interessa saber quanto tempo alguém consegue desfrutar do que obteve antes de assumir uma nova exigência.

Numa situação hipotética, um empresário alcança o rendimento que considerava suficiente para reduzir o trabalho, recebe um convite para almoçar com um amigo e responde que poderá depois da próxima expansão. A amizade lhe faz falta, embora aquele encontro continue sendo adiado. Minha investigação começaria pelo que torna a pausa tão difícil e pelo que ele imagina perder ao recusar um novo negócio. A dedicação profissional, a insegurança financeira e o desinteresse por aquela companhia precisariam encontrar lugar na conversa, com atenção às circunstâncias que permitiriam distinguir essas possibilidades.

 

O que participa das escolhas sem ser percebido?

Chamo de não consciente, no uso clínico que venho desenvolvendo, aquilo do próprio acontecer que participa do sentir, pensar e fazer sem estar suficientemente reconhecido. Preservo sua diferença em relação ao pré-reflexivo, a experiência antes de ser tomada como assunto de reflexão. Alguém pode perceber o desconforto de uma conversa e ainda desconhecer os motivos que o tornam tão intenso. Procuro acompanhar essas diferenças junto às situações, em vez de oferecer uma explicação pronta.

Em outra ilustração hipotética, uma arquiteta concorda com um pedido antes de consultar a agenda, mesmo precisando descansar, e só depois se irrita com o compromisso assumido. Ela sabe que poderia recusar, porém chega outra solicitação e oferece ajuda novamente. Na minha experiência clínica, esse intervalo merece atenção, sobretudo o que acontece quando o pedido chega, qual reação ela antecipa e que importância possui sentir-se procurada. Examino essas questões com quem as vive, procurando reconhecer o que sustenta a repetição e quais condições tornariam possível responder de outro modo. Conhecer a necessidade de descanso é diferente de conseguir preservá-lo naquele encontro.

 

O lugar que os relacionamentos ocupam

Considero legítimo dedicar grande parte do existir ao trabalho, à criação ou ao recolhimento. Quando alguém deseja intimidade, interessa-me compreender o espaço que consegue oferecer para conhecer e ser conhecido, apresentar necessidades, acolher divergências e escutar algo que contrarie suas expectativas. A prioridade atribuída a uma relação aparece também nessa disponibilidade. Dou atenção especial aos vínculos em que existe afeto e ainda assim falta abertura para uma conversa difícil, sobretudo quando aceitar o outro passou a significar concordar com tudo. Procuro reconhecer a possibilidade de discordar com respeito e conservar a intimidade, inclusive o direito de escolher o que contar e de estabelecer um limite sem precisar justificá-lo interminavelmente.

 

Autoconhecimento sem exigir uma definição acabada?

Entendo a autenticidade, nesta reflexão clínica, como a possibilidade de assumir escolhas e limites com maior conhecimento de si mesmo. Desconfio da exigência de uma descrição definitiva, pois continuamos acontecendo em relações e circunstâncias que também nos modificam. Winnicott ajuda-me a examinar o quanto corresponder às expectativas permite conviver e quando essa adaptação compromete a espontaneidade. Interessa-me o que alguém consegue experimentar, recusar ou desejar quando encontra confiança para apresentar algo ainda pouco conhecido, inclusive por si mesmo, e quanto consegue sustentar essa descoberta diante das respostas daqueles com quem convive.

 

O sentido do existir em psicoterapia

Nessas mais de três décadas de trabalho clínico, venho sustentando uma interlocução em que também seja possível corrigir meu entendimento e discordar de uma interpretação. A relação que procuro construir é horizontal no respeito e na possibilidade de conversar, com a responsabilidade profissional que assumo como psicólogo. Incluo nisso os acordos sobre mensagens e telefonemas entre consultas, para que minha disponibilidade seja compreensível e compatível com o acompanhamento, assim como a liberdade de dizer que uma pergunta chegou cedo demais.

Recebo a população LGBTQIAPN+ e acolho diferenças de raça, aparência, crenças religiosas, descrença e modos de organização afetiva, com atenção às condições concretas em que cada ser humano vive. Essa disposição inclui convicções políticas e experiências com drogas, que precisam ser compreendidas junto à história apresentada. Meu compromisso é oferecer uma conversa em que o receio de reprovação possa ser trabalhado, preservando a possibilidade de examinar consequências, necessidades e responsabilidades sem reduzir alguém ao que relata.

 

O que merece continuar?

Defendo um autoconhecimento que alcance o que se faz com aquilo que foi compreendido. Uma prioridade revista pede participação nos dias, negociações e tempo para que as tentativas possam ser sustentadas; também reconheço o valor de conservar um compromisso depois de examiná-lo. Para mim, o sentido do existir merece essa proximidade com o que se deseja, com o que se suporta e com os limites que permanecem. Meu trabalho é acompanhar essa investigação sem antecipar o destino de quem a realiza, permitindo que conservar ou modificar algo encontre razões mais reconhecíveis para aquele ser humano.

 

O que esta leitura fez reconhecer sobre o próprio existir? Qual desejo, relação ou limite passou a merecer mais atenção?

Espero Ter Ajudado!