Quando a dúvida sobre ser gay, bi ou hétero chega à psicoterapia
O medo de ser homossexual e perder o lugar de homem
Vejo nos meus atendimentos que muitos homens chegam à psicoterapia preocupados com a possibilidade de serem homossexuais, bissexuais ou de não caberem mais na ideia de heterossexualidade que sustentaram durante anos. A dúvida pode surgir depois de uma fantasia, de uma atração por alguém do mesmo sexo, de uma experiência corporal inesperada ou de um vínculo afetivo que desloca a pessoa de sua imagem anterior. Em muitos casos, a pergunta “sou gay, bi ou hétero?” vem acompanhada de medo, vergonha, culpa e necessidade urgente de uma resposta definitiva.
Não uso essa dúvida como diagnóstico automático, nem trato a sexualidade como algo que deva ser fechado depressa em uma palavra. Prefiro compreender cada caso em sua história, porque desejo, afeto, fantasia, curiosidade, experiência sexual e identidade não são sempre a mesma coisa. A pessoa pode estar diante de uma descoberta importante, pode estar vivendo um período de indefinição, pode estar presa a preconceitos internalizados ou pode estar tentando controlar uma angústia que ainda não conseguiu compreender.
Quando a preocupação maior é ser visto como passivo
Na minha experiência clínica, em alguns homens a preocupação não é apenas ser homossexual. O temor maior é ser identificado como gay passivo, como se essa posição sexual retirasse masculinidade, valor ou respeito. Esse medo revela uma camada muito persistente de preconceito, porque a sexualidade masculina ainda costuma ser pensada dentro de uma lógica de força, domínio, desempenho e controle. O homem aprende, desde cedo, que deve provar algo, e qualquer experiência que pareça deslocá-lo desse lugar pode ser vivida como ameaça.
Essa preocupação reflete o medo do julgamento social e da rejeição, mas também mostra o quanto certos preconceitos passam a morar dentro da própria pessoa. Às vezes, o homem não despreza conscientemente pessoas gays, mas sente pânico quando imagina que poderia ser visto como uma delas. Em outros casos, ele aceita a homossexualidade de modo abstrato, porém se desespera diante da possibilidade de ocupar a posição passiva, como se isso o colocasse no ponto mais baixo de uma hierarquia masculina cruel.
O preconceito mais persistente na sexualidade masculina
A hierarquia escondida entre heterossexual, bi, ativo e passivo
No universo masculino, a sociedade costuma construir graduações implícitas sobre como um homem deveria ser. No topo, aparece o homem heterossexual e heteroafetivo, tomado como referência de normalidade. Em seguida, muitas vezes, aparece o bissexual, tolerado com ambivalência. Depois, o homossexual identificado como ativo, ainda visto por alguns como alguém que preservaria certa masculinidade. Por fim, de modo mais desvalorizado, aparece o homem identificado como passivo.
Essa hierarquia não é neutra. Ela sustenta preconceitos, reforça estigmas e afeta diretamente a autoestima, a vida afetiva, o prazer e o bem-estar psíquico de muitos homens. O ponto mais triste é que essa lógica também pode aparecer dentro da própria comunidade gay, quando o passivo é tratado de forma depreciativa, associado a termos pejorativos como “bicha” ou “viado”, usados não como simples palavras, mas como tentativa de diminuir alguém.
A posição sexual não mede o valor de ninguém
Esse preconceito se ancora, sobretudo, na simbologia cultural que associa penetrar a agir, dominar, vencer ou ocupar um lugar superior, enquanto ser penetrado passa a ser associado a submissão, inferioridade ou perda de masculinidade. Essa leitura é pobre, machista e psicologicamente limitada, porque transforma uma posição corporal em julgamento moral. A posição sexual de uma pessoa não mede caráter, maturidade, coragem, inteligência, dignidade ou capacidade de amar.
A sexualidade não se reduz à posição ocupada durante o ato sexual. Ela envolve desejo, vínculo, consentimento, fantasia, entrega, cuidado, prazer e modo de relação com o outro. Uma pessoa pode ocupar uma posição passiva com autonomia, desejo e presença. Outra pode ocupar uma posição ativa e estar emocionalmente insegura, agressiva ou dependente de provar masculinidade. Logo, pensar que “quem penetra está bem” e “quem é penetrado vale menos” revela uma visão estreita e adoecida da sexualidade masculina.
O não consciente e a vergonha que a pessoa não entende
Quando o desejo ameaça uma imagem antiga de masculinidade
Em alguns casos, observo que o sofrimento não está apenas no desejo em si, mas no choque entre esse desejo e uma imagem antiga de masculinidade. O homem pode ter sido educado para rejeitar qualquer traço associado ao feminino, à delicadeza, à entrega ou à vulnerabilidade. Quando surge uma fantasia ou uma atração que toca esse campo, a reação pode ser desproporcional, como se toda a identidade da pessoa estivesse ameaçada por uma cena, um pensamento ou uma possibilidade.
Chamo aqui de não consciente esse campo de sentidos que atua antes da explicação racional, influenciando o que a pessoa sente, evita, repete ou teme. O homem pode dizer que está apenas tentando entender sua orientação sexual, mas, por baixo da pergunta, pode haver uma defesa antiga contra vergonha, humilhação e rejeição. Ele talvez não compreenda por que sofre tanto, mas o corpo reage, a ansiedade cresce, a culpa aparece e a necessidade de certeza passa a dominar o pensamento.
O corpo, o prazer e os papéis menos rígidos
O prazer sexual não se define apenas por um papel fixo, ativo ou passivo, masculino ou feminino, dominante ou entregue. Quando a sexualidade é reduzida a esses pares rígidos, a experiência humana empobrece e a pessoa passa a viver o corpo como tribunal. O corpo deixa de ser lugar de encontro, desejo e sensibilidade, e passa a ser visto como prova de valor, como se o homem precisasse demonstrar o tempo todo que continua sendo suficientemente homem.
De acordo com minha experiência, muitos homens sofrem porque tentam transformar a sexualidade em controle. Querem controlar a fantasia, o desejo, o corpo, a excitação, a imagem pública, o olhar dos outros e até a forma como serão lembrados. Essa tentativa de controle costuma aumentar a ansiedade. Em psicoterapia, o trabalho pode ajudar a diferenciar desejo, medo, preconceito, afeto e identidade, sem empurrar a pessoa para uma conclusão apressada e sem deixá-la prisioneira da vergonha.
Indefinição sexual e cuidado clínico sem julgamento
A dúvida pode fazer parte do amadurecimento
Ao nascermos, não trazemos uma narrativa pronta sobre nossa sexualidade e nossa afetividade. Algumas pessoas se reconhecem desde cedo em determinada orientação sexual, enquanto outras passam por dúvidas, deslocamentos e redefinições ao longo da vida adulta. Essa indefinição não deve ser tratada como fraqueza moral ou confusão vergonhosa. Em muitos casos, ela faz parte de um processo legítimo de amadurecimento, especialmente quando a pessoa começa a se permitir sentir aquilo que antes precisou esconder.
Também observo que o vínculo afetivo pode ocupar um lugar central. Uma pessoa pode se apaixonar por um homem ou por uma mulher e vivenciar prazer sexual justamente porque está com alguém que ama, deseja ou admira. Há pessoas que se reconhecem biafetivas, outras bissexuais, outras gays, outras heterossexuais com fantasias específicas, e há quem precise de tempo para compreender como seu desejo se organiza. O mais importante, clinicamente, é que a pessoa possa se escutar com menos medo e mais responsabilidade consigo e com o outro.
Quando procurar psicoterapia para falar de sexualidade
A psicoterapia pode ser importante quando a dúvida sexual deixa de ser uma pergunta viva e passa a produzir pânico, ruminação, culpa, autodepreciação, evitação de relações ou necessidade de certeza absoluta. No consultório, não vejo o trabalho clínico como uma decisão imposta de fora. A tarefa é criar um espaço de escuta em que a pessoa possa falar sobre desejo, medo, prazer, vergonha, preconceitos internalizados e relações afetivas sem ser reduzida a um rótulo.
Nessas mais de três décadas de experiência clínica, e também pela minha vivência humana de 59 anos, valorizo um atendimento humanizado, horizontal e sem julgamento. Isso inclui respeito ao público LGBTQIAPN+, ausência de homofobia, machismo, racismo, gordofobia, preconceito religioso, político ou moral, além de abertura para escutar pessoas que vivem fora das normas sociais impostas. Minha defesa, neste texto, é simples e firme: nenhuma orientação sexual e nenhuma posição sexual tornam alguém menor. O sofrimento começa quando uma pessoa tenta compreender sua sexualidade dentro de uma hierarquia que a ensinou a ter vergonha de existir.