♦ Humildade saudável para se cuidar se deixando ser cuidado.

Indefinição: Sou Gay Bi Hetero

-Indefinição: Sou Gay Bi Hetero

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Bacellart

Psicólogo Experiência USP Av Paulista Presencial ou Online

Preocupação maior é se é homossexual, gay passivo.

Indefinição: Sou Gay Bi Hetero

Muitas pessoas, sobretudo homens, chegam em consulta preocupados com a possibilidade de serem homossexuais. O temor surge ao gostar de alguém do mesmo sexo, devido a preconceitos, inclusive os que vêm de si mesmos.

Essa preocupação reflete o medo do julgamento social e da rejeição. A sexualidade é um espectro e a definição de cada um pode ser fluida.

A maior preocupação vem do estigma social, que se agrava se a pessoa se identifica como homossexual do tipo ‘passivo’. É triste saber que até entre os gays, o passivo enfrenta esses estigmas, sendo chamado de “bicha” e “viado”, termos pejorativos.

Isso evidencia a necessidade de resignificar os preconceitos e lidar naturalmente com a indefinição.

É crucial criar um ambiente seguro para que as pessoas explorem sua sexualidade sem medo de represálias ou preconceitos.

O preconceito mais persistente

A desvalorização do homem identificado como “passivo” na sexualidade masculina

A hierarquização implícita da masculinidade

No universo masculino, a sociedade constrói graduações implícitas sobre como um homem “deveria ser”. Em geral, coloca no topo o homem heterossexual e heteroafetivo; em seguida, o bissexual; depois, o homossexual ativo; e, por fim, o homossexual identificado como “passivo”.

Essa hierarquização não é neutra. Pelo contrário, ela sustenta preconceitos, reforça estigmas e impacta diretamente a autoestima, o bem-estar psíquico e a forma como muitos homens vivem sua sexualidade.

Além disso, essa lógica não se limita ao olhar social mais amplo. Ela também aparece, em alguns casos, dentro da própria comunidade gay, onde a posição passiva ainda pode assumir um caráter depreciativo, associada a termos pejorativos e desqualificadores.


A origem simbólica do preconceito

Esse preconceito se ancora, sobretudo, na simbologia cultural que associa penetração à atividade e ser penetrado à passividade. A partir dessa leitura simplificada, quem ocupa a posição passiva passa a ser visto como inferior ou menos masculino.

No entanto, essa associação não se sustenta quando observamos a complexidade da experiência sexual. Em muitas relações heterossexuais, por exemplo, a mulher pode vivenciar mais prazer do que o homem. Da mesma forma, expressões populares como “comer um homem” ou “cavalgar em um homem” já deslocam essa noção rígida de quem é ativo ou passivo.

Assim, a sexualidade não se reduz à posição corporal ocupada, mas envolve desejo, entrega, vínculo, fantasia e troca.


Prazer, vínculo e desconstrução de papéis fixos

O prazer sexual não se define pela posição, mas pela conexão emocional e física estabelecida entre as pessoas. Quando se reduz a sexualidade a papéis hierarquizados, empobrece-se a experiência humana e reforça-se uma lógica de dominação simbólica.

Nesse sentido, pensar que “quem penetra está ok” e “quem é penetrado é o viado” revela uma visão simplista, binária e profundamente limitadora da sexualidade masculina.

Desconstruir essa lógica exige diálogo, escuta e educação sexual que reconheçam a pluralidade das vivências afetivas e eróticas.


Indefinição sexual: uma possibilidade legítima

Ao discutir sexualidade, é fundamental compreender que termos como “gay”, “bi” ou “hetero” não devem funcionar como prisões identitárias, mas como expressões possíveis da diversidade humana.

Muitos homens transitam entre dúvidas, deslocamentos e redefinições ao longo da vida adulta. Essa indefinição não representa fraqueza ou confusão moral, mas um processo legítimo de autoconhecimento.

Reconhecer que a sexualidade pode se apresentar como um espectro — e não como categorias rígidas — amplia horizontes e reduz sofrimentos desnecessários.


Sexualidade, aceitação e espaço seguro

A compreensão da sexualidade pode ser angustiante em determinados momentos, sobretudo para homens atravessados por normas tradicionais de masculinidade. Ainda assim, quando esse processo ocorre em um espaço de escuta e respeito, ele se torna profundamente libertador.

Criar ambientes seguros para falar sobre desejos, afetos e identidades não apenas favorece a saúde mental individual, mas também fortalece relações mais honestas e maduras.

Dúvida na Sexualidade:

Ao nascermos, não definimos completamente nossa sexualidade e nossa afetividade. Embora muitas pessoas apresentem, inicialmente, maior propensão à heterossexualidade e à heteroafetividade, essa configuração pode se transformar, sobretudo na fase adulta. Nesse percurso, sentir dúvidas e incertezas é algo normal, e mais do que isso, aceitar essas incertezas integra o próprio processo de autodescobrimento.

Além disso, em muitos casos, o vínculo afetivo assume papel central. Uma pessoa biafetiva, por exemplo, pode se apaixonar por uma mulher ou por um homem e vivenciar prazer sexual justamente por estar com quem ama. Assim, a conexão afetiva torna-se fundamental e pode gerar uma profunda sensação de plenitude no relacionamento. Por essa razão, o mais importante é que cada pessoa encontre aquilo que faz sentido para si, respeitando seus próprios sentimentos e desejos.

Desse modo, compreender a própria sexualidade constitui um processo que, embora possa ser angustiante em alguns momentos, também se revela profundamente libertador.

Por fim, homens condicionados por normas tradicionais de masculinidade frequentemente experimentam confusão interna. Diante disso, aceitar a própria identidade torna-se um passo essencial para viver de forma mais plena e em maior paz com a própria existência.