Desenvolvimento da Relação –
D não precisa ser de Discutir:
Em relação ao título que me foi sugerido, sustento que nossa personalidade não se forma de maneira determinada ou mecânica. Neste texto, apresento sugestões que mostram como o casal pode se desenvolver gradualmente por meio da comunicação.
Atenção: existe, sim, relacionamento tranquilo, sem DR (discutir a relação, no bom sentido); entretanto, esse tipo de vínculo permanece limitado. Toda discussão gera enriquecimento e amplia horizontes. Para ilustrar, quando um engenheiro se une a um arquiteto, a um sociólogo e a um historiador para decidir como realizar determinada obra pública, o grupo produz um impacto social muito maior.
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DR é um exercício difícil mas necessário:
Nós não fomos preparados para ter paciência com o cônjuge e lidar com uma situação delicada e constrangedora de uma DR. Sobretudo nós, brasileiros, vindos de uma cultura autoritária e não adulta, enfrentamos desafios. Até mesmo casais de países civilizados têm problemas em discutir a relação.
Pois bem, se discutir a relação é algo difícil, não estamos habituados a isso e não nos ensinaram. Muitas vezes, tentamos métodos que depois de um tempo não dão mais certo, como dizer “tá tudo bem”, ou fazer uma viagem “para curar a relação”. Optamos também por presentes e sexo. Então chegou o momento de a relação entrar numa situação mais adulta e começarmos a nos desenvolver nos diálogos.
Por isso que digo que é um exercício. O casal não sabe como fazer, é difícil, e vai demorar até chegarem a fazerem isso de forma tranquila e corriqueira. Contudo, tendo como rumo o desenvolvimento em discutir a relação, e unidos com o mesmo propósito, gradualmente perceberão a diferença.
Civilizadamente:
É muito importante a disposição em ter uma DR; prefiro chamar de CR (conversar sobre a relação), devido ao sentido negativo que ‘discutir’ tem. Contudo, discutir, segundo o dicionário Houaiss, tem o sentido de ‘analisar questionando’ e, esse é um ótimo sentido e motivo para uma DR saudável.
1) Reconhecer os seus limites: O quanto você já se desenvolveu em conseguir ter uma conversa produtiva, se expondo, ponderando, aberto(a) a críticas, visando uma melhora para os dois? Admita suas dificuldades e peça compreensão e ajuda para que a conversa flua bem.
2) Reconhecer os limites do outro: o(a) companheiro(a) tem dificuldade de se abrir? ele(a) consegue ir se abrindo mas precisa tempo? Há dificuldade de baixa autoestima (ou de orgulho) e a pessoa se sente atacada? O mesmo para quem teve uma educação autoritária, sentir-se cobrado e “contra-atacar”? Diga que reconhece e entende essas limitações na pessoa e que levará em conta durante o diálogo.
Continuação:
3) “Se você consegue ter uma DR no trabalho…” (como em uma reunião): Sim, isso mesmo. Então você tem a capacidade de conseguir com sua(eu) companheira(o). Se você não tivesse desenvolvido formas de convívio humanas básicas, e se tivesse algum problema psicológico sério, não conseguiria ter uma reunião no trabalho sem perder a calma. Sem criar sérios problemas. Então, há que esforçar-se e fazer o mesmo “em casa” com quem você diz amar, incluso filhos, amigos, etc.
4) Olhar e Tom de voz: Como em tese essa será uma conversa presencial. Um olhar tenro e um tom de voz brando são essenciais. Por exemplo, uma palavra pode ter seu sentido alterado dependendo do tom de voz. “Lá vem o negão”, sorrindo, pode ser dito por uma esposa que ama o marido e está contente com sua aproximação, não necessariamente algo preconceituoso.
5) Como sócios: A proposta aqui é a melhoria em discutir a relação, da parceria. Portanto, o casal, com intuito único, vai precisar “se reunir” com calma para diagnosticarem o que acontece, o que querem e como planejam que isso aconteça. Algo semelhante a sócios que estão com problema na ONG deles. Caso os dois queiram melhorar a ONG, é fundamental discutirem a relação.
Nossa dificuldade em nos revelarmos ao outro:
Muitas vezes é difícil nos desvelarmos a nós mesmos, por ser incômodo nos depararmos com nossas questões existenciais, nossas contradições, nossos problemas psicológicos, culpas, decepções, etc. Compartilhar isso com o outro exige uma sofisticação na relação. Precisaremos estar à vontade em saber que seremos verdadeiramente compreendidos. Além disso, saber que não será criticado negativamente, julgado e condenado.






