Hipercompetitividade e autocobrança, Trabalhar, Viver: conciliação

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Bacellart

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Hipercompetitividade e autocobrança, Trabalhar, Viver: conciliação

Hipercompetitividade e autocobrança, Trabalhar, Viver: conciliação

Hipercompetitividade e autocobrança, Trabalhar, Viver: conciliação

Bacellart Psicólogo USP Paulista - O ensaio poderá ser reproduzido, desde que citado o autor.

Quando o padrão de excelência se transforma em impaciência consigo e com as pessoas.

Há seres humanos que aprenderam muito cedo a funcionar bem. Entregam antes do prazo, percebem rapidamente onde há perda de tempo, antecipam problemas, melhoram processos, estudam bastante, trabalham muito e costumam ser reconhecidos por isso. Nada disso me parece, por princípio, um problema. Ao contrário, competência, ambição e prazer em realizar podem compor uma existência bastante rica. O ponto delicado surge quando a excelência deixa de ser uma possibilidade e passa a funcionar quase como obrigação permanente, inclusive nas situações em que nenhuma excelência seria necessária. Vejo nos atendimentos homens e mulheres bem sucedidos que conseguem organizar empresas, equipes e projetos complexos, porém experimentam irritação desproporcional diante de um atraso pequeno, de uma decisão mais lenta ou simplesmente de alguém que faz as coisas em outro ritmo.

Bacellart Psicólogo USP Paulista. O ensaio pode ser reproduzido, desde que citado o autor.

Quando fazer melhor deixa de ser uma escolha

A hipercompetitividade nem sempre aparece como vontade explícita de derrotar alguém. Muitas vezes ela se apresenta de maneira mais discreta, como necessidade de fazer melhor, mais rápido, com menos erro e menor desperdício. O parâmetro vai subindo aos poucos e o que ontem era motivo de satisfação passa a ser considerado apenas o mínimo aceitável. Uma promoção profissional produz contentamento por pouco tempo; logo surge a próxima meta. Um trabalho muito bem realizado deixa de provocar satisfação quando o ser humano percebe uma falha pequena que ninguém mais havia notado. A própria experiência vai ficando estreita, pois cada realização é rapidamente transformada em ponto de partida para outra exigência.
Na minha experiência clínica, esse modo de existir pode ser admirado durante muitos anos, inclusive pelo próprio ser humano que o desenvolveu. Afinal, costuma produzir resultados. A dificuldade aparece quando a mesma exigência usada para alcançar bons resultados começa a comandar também relações amorosas, amizades, descanso e convivência familiar. O parceiro demora demais para escolher o restaurante, o filho poderia ter se esforçado mais, o colega explica algo de forma pouco objetiva, o atendente parece lento. A impaciência se espalha. O outro começa a ser percebido quase pelo que poderia fazer melhor.

 

“Sou automático, funciono como uma máquina e otimizo tudo. Falta um sentimento… qual?”

Essa frase poderia ser dita por muitos pacientes que chegam ao consultório sem compreender exatamente o que os incomoda. Eles continuam produzindo, organizando e decidindo, portanto aparentemente tudo funciona. Ainda assim, alguma experiência parece ter empobrecido. Se tivesse de escolher uma palavra para começar essa investigação, escolheria benevolência, entendida como uma disposição afetiva para reconhecer limites próprios e alheios sem transformar toda insuficiência em falha moral. A palavra não resolve o fenômeno, evidentemente, porém ajuda a aproximar uma questão frequente: por que um erro pequeno precisa provocar tanta irritação, e por que descansar algumas horas pode ser vivido como desperdício?
Em certos casos, observo também uma redução da capacidade de usufruir. O ser humano termina uma tarefa e já está pensando na seguinte, viaja e começa a organizar o retorno, janta com alguém e percebe mentalmente o tempo que aquilo está consumindo. Até o lazer pode ser otimizado. Escolhe o melhor restaurante, a melhor rota, o horário mais eficiente, a experiência mais bem avaliada, e ao final quase não houve repouso. Há uma ironia nisso: consegue administrar com excelência aquilo que deveria justamente prescindir de administração.

A autocobrança costuma chegar antes da reflexão

A dimensão pré reflexiva, expressão que uso aqui para indicar aquilo que já orienta nosso modo de sentir e agir antes de uma reflexão organizada, ajuda a compreender parte desse fenômeno. Um executivo pode saber que determinada tarefa não exige perfeição e, mesmo assim, refazê la várias vezes. Outro compreende intelectualmente que o filho tem direito a escolher uma profissão menos prestigiosa, porém sente irritação quando essa possibilidade aparece. Alguém reconhece que precisa descansar e passa o domingo procurando tarefas úteis. O conhecimento está presente, porém uma maneira anterior de se relacionar consigo e com o mundo continua operando.
Isso explica por que conselhos simples têm pouco alcance. Dizer a alguém excessivamente exigente que “relaxe” oferece quase nada, pois a questão raramente está na ausência dessa informação. Em mais de três décadas de clínica, encontrei muitas vezes seres humanos que sabiam perfeitamente que estavam se cobrando demais. O que ainda não conseguiam compreender era por que a diminuição dessa cobrança parecia tão ameaçadora. Para alguns, produzir menos se aproxima de perder valor; para outros, depender de alguém desperta desconforto; há também quem tenha construído grande parte da própria identidade em torno da capacidade de resolver aquilo que os demais não.

 

Quando a excelência começa a interferir nas relações

Conviver exige tolerar ritmos, habilidades e prioridades diferentes. Esse talvez seja um dos pontos mais difíceis para quem passou muitos anos valorizando eficiência. No trabalho, exigir determinado padrão pode ser necessário; numa relação amorosa, a lógica muda bastante. Um companheiro não é uma equipe a ser aprimorada, filhos tampouco são projetos cujo desempenho deve corresponder às expectativas dos pais. A mesma observação que num ambiente profissional poderia melhorar um procedimento pode, repetida diariamente numa relação afetiva, produzir sensação de insuficiência e afastamento.
Costumo prestar atenção ao momento em que a crítica deixa de se referir a algo específico e começa a atingir quase tudo. A toalha foi colocada de maneira inadequada, a viagem foi mal planejada, a compra poderia ter sido mais vantajosa, a conversa demorou demais. Isoladamente, nenhuma dessas observações parece grave. A repetição modifica a atmosfera do vínculo. Aos poucos, o outro pode começar a evitar iniciativas, consultar antes de decidir ou simplesmente reduzir a proximidade para não se sentir continuamente avaliado.

Competir com os outros e competir consigo mesmo

Há quem considere a competitividade um traço exclusivamente social, ligado ao desejo de superar colegas, adversários ou concorrentes. Na clínica, encontro com frequência uma modalidade mais severa: competir com a própria versão anterior. O resultado de hoje precisa superar o de ontem, e aquilo que foi excepcional rapidamente se torna obrigação. Esse mecanismo possui uma aparência admirável, pois frequentemente acompanha carreiras muito bem construídas, formação acadêmica extensa e grande capacidade de realização. Seu custo começa a ficar visível quando nenhuma conquista consegue permanecer como experiência satisfatória por algum tempo.
Também pode surgir uma espécie de contabilidade afetiva. Quem se esforça muito espera, sem perceber claramente, que os demais demonstrem esforço semelhante. Um homem que trabalha doze horas por dia pode se irritar com a companheira que deseja passar uma tarde lendo; uma profissional extremamente disciplinada pode interpretar a maior flexibilidade do parceiro como falta de compromisso. Cada um passa a avaliar o outro por critérios produzidos em sua própria história. Essa passagem merece atenção, pois eficiência deixa então de ser escolha de si mesmo e transforma se em medida para julgar modos diferentes de existir.

 

O que acontece quando parar parece perigoso

Alguns pacientes relatam algo curioso nas férias: os primeiros dias são os piores. Sentem irritação, inquietação, procuram pendências, abrem mensagens profissionais sem necessidade clara. Depois de algum tempo, conseguem usufruir melhor. Isso sugere que a dificuldade de descansar não se resume a gostar muito do trabalho. Há quem experimente o próprio valor através da utilidade, e ficar algumas horas sem produzir retira temporariamente uma referência importante de si mesmo.
Winnicott escreveu sobre a capacidade de estar só, uma formulação sofisticada que não descreve isolamento, e sim a possibilidade de permanecer consigo sem precisar preencher continuamente a experiência com demandas. Essa ideia me interessa muito quando penso na autocobrança. Há seres humanos brilhantes para resolver problemas e quase estrangeiros diante de uma tarde sem problemas para resolver. Nesse ponto, a psicoterapia pode permitir uma investigação que não condene sua competência nem sua ambição, procurando compreender por que essas qualidades passaram a ocupar espaço tão extenso no existir.

 

Psicoterapia sem domesticar a ambição

Tenho pouca simpatia pela ideia de que um ser humano precise se tornar menos ambicioso, menos exigente ou menos dedicado apenas para caber numa definição genérica de equilíbrio. Há quem encontre grande satisfação em trabalhar intensamente, competir, construir, estudar e realizar muito. Uma psicoterapia respeitosa precisa começar pela singularidade dessa existência. A questão que considero mais fértil é outra: essa maneira de viver continua sendo escolhida ou já se tornou quase obrigatória?
A diferença é importante. Escolher dedicar um sábado a um projeto pode produzir satisfação; sentir que seria intolerável fazer outra coisa aproxima se de uma restrição. Buscar excelência pode ser prazeroso; experimentar humilhação diante de qualquer resultado apenas bom merece compreensão. A partir daí, interessa recuperar alguma mobilidade, poder trabalhar muito quando isso faz sentido, descansar quando se deseja, reconhecer uma falha sem transformar o episódio numa condenação de si mesmo e conviver com seres humanos que possuem outros ritmos sem precisar corrigi los continuamente.

 

Conclusão

A hipercompetitividade e a autocobrança excessiva merecem ser compreendidas com respeito por aquilo que também produziram. Muitas carreiras admiráveis foram construídas com disciplina, persistência e exigência elevada, portanto seria simplório tratar essas características como defeitos a serem retirados. O problema aparece quando o modo de realizar se torna tão dominante que reduz outras possibilidades de existir, usufruir, amar, descansar e aceitar limitações inevitáveis. Aos 59 anos e depois de 31 anos de prática clínica, continuo considerando mais produtivo compreender a história e o sentido de uma exigência do que simplesmente combatê la.
Talvez a pergunta mais interessante não seja quanto alguém consegue produzir, e sim quanto de liberdade ainda permanece em sua relação com aquilo que produz. Quando existe escolha, a excelência pode continuar sendo uma qualidade extraordinária; quando toda falha provoca desprezo por si mesmo e toda lentidão alheia desperta irritação, algo merece ser examinado com maior proximidade. Psicoterapia, para mim, pode justamente ampliar essa compreensão sem transformar potência em patologia, permitindo que competência e benevolência deixem de parecer incompatíveis.

Sugiro refletir com calma, esse tema: Solidão / Ser único, não ter com quem compartilhar quem você é, é importante, mesmo não sendo o seu caso.

Espero Ter Ajudado!