Quando duas relações atendem a necessidades diferentes
Às vezes o impasse também oferece alguma proteção
Vejo nos atendimentos que um envolvimento extraconjugal pode permanecer por muito tempo por sustentar necessidades diferentes. O casamento reúne história, confiança, convivência, filhos e alguma estabilidade; o outro vínculo oferece desejo, acolhimento ou uma proximidade afetiva que havia se tornado escassa. Meu interesse clínico se volta especialmente para o momento em que essa coexistência passa a organizar o existir. Há quem sofra com a indefinição e, simultaneamente, encontre nela uma maneira de conservar o que teme perder.
Bacellart Psicólogo USP Paulista – O ensaio pode ser reproduzido, desde que citado o autor.
O sofrimento pode estar menos no amor e mais na indefinição
Escolher também significa perder alguma coisa
Na minha experiência clínica, algumas dificuldades aumentam diante da expectativa de encontrar uma solução que preserve tudo. Uma separação pode modificar a convivência familiar, a situação financeira, o pertencimento social e os planos construídos durante anos; encerrar o envolvimento paralelo pode exigir despedir-se de alguém por quem se desenvolveu intenso afeto. Quando qualquer perda parece insuportável, prolongar o impasse acaba adquirindo um sentido provisoriamente preferível, embora também produza desgaste.
Procuro distinguir o tempo necessário para amadurecer uma escolha daquele que apenas renova o adiamento. Essa diferença exige atenção à história de cada ser humano, às suas condições concretas e ao que efetivamente mudou ao longo dos meses. Uma dificuldade financeira pode requerer preparação; o temor de magoar alguém pode precisar ser compreendido. A questão se amplia quando cada obstáculo resolvido dá lugar a outro, enquanto a decisão permanece sempre distante.
Aquilo que participa das escolhas sem estar suficientemente compreendido
Uso a expressão “não consciente fenomenológico” para me referir, neste ensaio, a aspectos do próprio sentir e agir ainda pouco compreendidos. Adoto esse sentido descritivo, preservando a diferença em relação ao inconsciente psicanalítico. Interessa-me perceber como alguém pode explicar repetidamente sua demora por um motivo aparentemente claro, enquanto outros receios continuam difíceis de reconhecer.
Como exemplo possível, um homem pode atribuir sua permanência no casamento exclusivamente aos filhos, embora também encontre ali companhia, reconhecimento e uma familiaridade que teme abandonar. Uma mulher pode acreditar que aguarda apenas uma ocasião adequada, enquanto ainda lhe parece insuportável assumir a ruptura de uma história importante. Considero essas possibilidades de investigação, sem presumir o que acontece em cada caso. Compreender melhor o próprio envolvimento exige disposição para rever explicações que pareciam suficientes.
Quando a promessa começa a ocupar o lugar da relação
O futuro anunciado precisa encontrar algum acontecimento presente
Tenho observado que certas ligações se prolongam por compromissos sucessivamente adiados. A separação acontecerá quando os filhos crescerem, quando as finanças melhorarem ou depois de alguma dificuldade familiar. Procuro compreender essas promessas junto ao que ocorreu durante o período transcorrido, pois uma intenção pode coexistir com uma enorme dificuldade de assumir suas consequências. A intensidade do afeto, por si só, oferece pouca informação sobre a disponibilidade para reorganizar o cotidiano.
Nessa reflexão, considero relevante examinar se houve alguma providência compatível com o futuro anunciado, quais impedimentos continuam presentes e quanto desse projeto foi efetivamente compartilhado. A expectativa de uma mudança pode sustentar a ligação durante anos, mesmo quando os encontros permanecem restritos e os planos nunca ganham condições de acontecer. O tempo decorrido também passa a fazer parte daquilo que precisa ser compreendido.
Quem aguarda a separação também tem algo a decidir
Meu olhar inclui quem vive à espera de uma definição alheia. Nessa posição, é possível reorganizar horários, recusar outros encontros e suspender projetos para preservar a possibilidade de um futuro conjunto. Aos poucos, grande parte do que se deseja realizar pode ficar condicionada a uma iniciativa sobre a qual se tem pouca participação.
Considero importante examinar o que esse vínculo oferece hoje, quanto sofrimento acompanha a espera e quais condições são aceitáveis para continuar. Ter afeto por alguém pode conviver com a percepção de que o acordo atual se tornou difícil de sustentar. Na psicoterapia, há espaço para compreender essa experiência e reconhecer a própria participação na continuidade do impasse, com respeito às limitações e aos desejos envolvidos.
O cotidiano também precisa caber no futuro imaginado
Entendo que a comparação entre o casamento e um envolvimento extraconjugal merece cuidado, pois os encontros podem acontecer sob circunstâncias bastante diferentes. A convivência diária inclui compromissos, cansaço, despesas e desacordos; uma ligação com tempo restrito pode oferecer ocasiões especialmente preparadas para a proximidade. Procuro incluir essa diferença na reflexão, preservando o valor do afeto existente. Compartilhar uma rotina trará situações que talvez ainda tenham sido pouco experimentadas pelo casal.
Conclusão
Depois de mais de três décadas de prática clínica, considero fecundo compreender o que cada vínculo preserva, quais perdas vêm sendo evitadas e que modo de existir se consolida enquanto a resolução é adiada. Meu trabalho favorece esse esclarecimento, respeitando o tempo necessário para reconhecer sentimentos, avaliar possibilidades e assumir responsabilidades perante os envolvidos. Incluo nesse cuidado o cônjuge que desconhece o relacionamento paralelo, pois o que lhe é omitido também limita sua possibilidade de decidir sobre a convivência.
Defendo uma compreensão que permita aproximar os planos daquilo que se consegue efetivamente sustentar. Continuar casado, encerrar o envolvimento paralelo ou preparar uma separação são caminhos cujas consequências merecem atenção. A reflexão se torna mais consistente quando alcança tanto o que se deseja conservar quanto aquilo de que será preciso abrir mão.